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segunda-feira, 9 de julho de 2012

À conversa com Isabel Machado

Foi através de email que a autora Isabel Machado recebeu as minhas perguntas. Sem evitar nenhuma, mesmo aquela sobre o seu futuro trabalho, antes aproveitando para se alongar em alguns temas importantes.
A entrevista tentou, como sempre, falar da obra - neste caso, de Isabel I de Inglaterra e o seu médico Português - mas também do próprio percurso da autora e do que o seu trabalho contribui para a sua visão da actualidade do país.
Espero que gostem do resultado final.





- Porque escolheu o romance histórico como género para a sua obra de estreia?
Na verdade, foi um desafio que me lançaram e que aceitei logo, perfeitamente consciente da loucura que estava a fazer. De qualquer forma, sempre gostei deste género literário e adoro história. Da experiência que tive, estou convencida que só quem goste muito de história deve avançar para uma coisa destas. O trabalho de pesquisa pode desmotivar o mais afoito! Chega a ser brutal.


- Que romances históricos leu que a fizeram sentir-se mais inclinada a este género?
Tenho lido muitas coisas, a começar pelos incontornáveis Walter Scott e Alexandre Herculano. Devo dizer que gosto muito dos pré-românticos e dos românticos ou dos romancistas e poetas de inspiração romântica, incluo neste grupo desde Jean-Jacques Rousseau, Victor Hugo, o nosso Almeida Garrett, Chateaubriand, ou os americanos Nathaniel Hawthorne e o magnífico Walt Whitman. Todos estes autores me marcaram muito na juventude, claro que nem todos fizeram exactamente romance histórico. Entre os mais recentes, gosto muito de Gore Vidal, Amin Maalouf, mas tento ler coisas diferentes, nos últimos anos também incluí Phillippa Gregory, de que não gostei logo, admito, tem uma linguagem e um ritmo muito próprios mas que aprendi a apreciar porque os seus romances se passam imediatamente antes e durante a dinastia Tudor. Desta época, há um romance histórico brilhante, da Hilary Mantel, chamado Wolf Hall, sobre Thomas Cromwell, o controverso ministro de Henrique VIII. Entre os autores portugueses, há excelentes romances históricos contemporâneos, muito diferentes entre si, de Fernando Campos a Saramago, entre muitos outros mais jovens, não quero referir nomes porque acho injusto se me esquecer de algum.


- Que outras influências tem a sua escrita?
Não sei responder directamente a essa pergunta, talvez os outros o possam fazer melhor do que eu, não tenho o distanciamento necessário. O que posso dizer é que também fui muito marcada por grandes romances de crítica social ou de grande densidade psicológica de Charles Dickens, Stendhal, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Flaubert, Emile Zola. Eu quis escrever uma história que trouxesse algo de novo e que pudesse ser lida por toda a gente, sem banalizar. Límpida, clara, mas com uma linguagem agradável, com pormenores, ensinando também. Sentia uma responsabilidade enorme por trazer pela primeira vez para a literatura portuguesa esta figura decisiva da história mundial e outras suas contemporâneas. Quis humanizá-las, torná-las familiares ao público português, respeitando sempre muito o contexto histórico. Quis enquadrar as personagens no período em que viveram, explorando a política, a religião, a medicina, a espionagem, as diferenças entre as classes sociais. E, claro, cruzando a história dos dois países, com uma perspectiva crítica.


- Como se consegue escrever um romance histórico de 512 páginas?
Praticamente enlouquecendo, nós e os que estão à nossa volta. Com muito trabalho. Muito trabalho. Alguns momentos de desespero mas tem de se acreditar. Pus na secretária um pequeno livrinho, que comprei há uns anos, com o título Keep Calm and Carry On, aquele slogan fabuloso dos cartazes ingleses durante a II Guerra Mundial e que, de repente, ficou na moda. Com determinação e trabalho tudo se consegue. Agora, acho que houve um factor fundamental que foi o prazo que eu tinha para escrever. Sou muito desorganizada com papéis, a minha secretária e o chão à volta é um caos, perco-me no meio dos meus próprios apontamentos, dos livros, das fotocópias, é mesmo muito mau, mas sou extremamente cumpridora. Sou incapaz de falhar um prazo. Portanto, mesmo que caísse para o lado no final, como veio a acontecer, tinha que entregar o livro no dia previsto. Acho que isso ajuda. Ser cumpridor é fundamental porque nem nos ocorre que iremos falhar. Podemos morrer a seguir mas honramos o compromisso.


- Quanto tempo lhe durou a pesquisa e, depois, a escrita em si mesma?
Não chegou a um ano, quase um ano, no total. Uma verdadeira loucura. Nos meses finais, não fazia mais nada, vivia quase totalmente alienada da realidade. A pesquisa desenvolve-se no início mas, na verdade, nunca me abandonou completamente. Estava sempre a confirmar factos, pequenas coisas, aparentemente mínimas, mas muito importantes. Coisas que só nos ocorrem quando já estamos a escrever, por se tratar de uma época bastante recuada colocam-se imensas dúvidas no meio de uma cena, de uma descrição, pormenores do dia a dia, dos hábitos daquela época, até dos legumes que se comiam numa determinada altura do ano, as flores que havia, os materiais, os objectos, tudo o que se possa imaginar.


- Porquê este período histórico em concreto? Alguma atração especial por Isabel I de Inglaterra?
Primeiro, escolhi a figura, Isabel I. Porque é uma mulher que sempre admirei, que se impôs num mundo de homens, governando de uma forma muito sui generis, muito feminina, uma mulher brilhante, cultíssima, manipuladora, com um humor extraordinário, mas contraditória, carente, insegura, indecisa, atrevida, picante, de uma vaidade absurda. Consegue sobreviver até chegar ao trono devido à sua inteligência, astúcia e determinação. E depois, confundindo tudo e todos, vai impor a sua vontade: não casa, evita as guerras até ao limite, pacifica o reino, cria uma igreja anglicana moderada, apoia a literatura e as artes em geral e projecta Inglaterra no mundo. Isabel I altera a ordem de poder na Europa para sempre. O período histórico também era irresistível: o Renascimento é uma das épocas mais fascinantes da Europa, com todas as convulsões religiosas, políticas, artísticas e científicas que trouxe. 


- Sente-se na sua obra uma vontade de mostrar o lado mais humano de cada personagem, isto é propositado? Qual a intenção disso mesmo perante o leitor?
Sim, é rigorosamente propositado. Foi, aliás, um dos principais objectivos a que me propus desde início.  Eu não queria escrever um daqueles romances históricos em que os acontecimentos se sucedem uns aos outros, sem pausas para pensar, reflectir. Acho que este não é um livro que se lê de um fôlego. Quis dar densidade às personagens. Densidade e coerência, mesmo na sua aparente incoerência, como é o caso de Isabel I. Acredito que todos nós somos, acima de tudo, pessoas e a nossa forma de ser determina tudo o resto. Eu queria que os leitores “vissem” aquelas figuras, que lessem as suas pequenas reacções, que as interiorizassem. Quis defini-las com muito cuidado. Em primeiro lugar a rainha, foi um trabalho muito interessante porque é difícil encontrar uma personalidade mais complexa do que Isabel I. E todos os outros. Por exemplo, William Cecil, Francis Walsingham e Robert Dudley, os principais conselheiros do reinado, eram com certeza pouco conhecidos de muitos portugueses, todos muito diferentes entre si. Quis vincar bem a personalidade de cada um na forma como se exprimiam, como falavam com a rainha, os seus gestos, as roupas que vestiam.  Walter Raleigh é outro caso, não poderia passar ao lado da sua extravagância, daquela vaidade insana, daquele excesso que encantou Isabel, sempre atraída por homens belos e exagerados. Era fundamental para mim aprofundar a componente humana, as angústias, as paixões, as vaidades, os medos, o amor, a raiva, o ciúme, sentimentos que todos conhecemos mas que expressamos de maneiras tão diferentes. Penso que nenhum leitor, ao fim de algumas páginas, está à espera que o William Cecil entre aos gritos pelos aposentos da rainha, como ponho o Robert Dudley ou, mais tarde, o conde de Essex a fazer. Mas ninguém a vergava como ele. Ou que o Francis Walsingham recorra à lisonja ou aos floreados para falar com a rainha. É directo, quase brutal. Gosto de personagens bem marcadas e dos contrastes, do ridículo, do absurdo.

- Com que ideia ficou de Isabel I de Inglaterra? E de Rodrigo Lopes?
Fiquei com a ideia de que era uma mulher bastante marcada pela sua infância e juventude. Muito atormentada pelo passado. Começo o livro com um pesadelo por isso mesmo. Acho que o principal motivo que a levou a não casar - para além da sua indecisão crónica - foi o medo. Medo de ser infeliz, medo de perder o apoio popular, medo de subjugar o reino a interesses de fora. Precisou de ter o poder todo mas era brutalmente carente. Surpreendeu-me muito a sua dificuldade em tomar decisões. Foi talvez a maior surpresa para mim, imaginamos sempre Isabel I como uma mulher de pulso de ferro, que corta a direito e decide rapidamente e com frieza. Pois, era exactamente o contrário. Não conseguia decidir. Mas depois, sempre que o perigo era real e imediato, não hesitava, como aconteceu com a ameaça da Invencível Armada. Foi o momento mais brilhante do seu reinado. 
Com o Rodrigo Lopes foi um trabalho muito diferente. Não há quase nada sobre a personalidade dele, o que existe é preconceituoso, racista, completamente parcial, era um estrangeiro e um judeu e é sob essa perspectiva que ele é descrito. Inventei-lhe uma personalidade que me pareceu coerente com as actividades que desenvolve, fazendo-o aparecer desde cedo como um homem muito ambicioso e insatisfeito com a estagnação, alguém que quer sempre mais. Sendo o primeiro físico residente numa grande instituição hospitalar de Londres, existe uma única descrição de um tratamento inovador que fez, compus a personagem como alguém com sucesso profissional, sempre em busca de conhecimento, baseando-me em estudos de outro médico português que fez furor na Europa, mais ou menos na mesma época, Amato Lusitano. Por outro lado, para agradar à rainha, sabe-se que lhe lia livros, tinha de ser sofisticado, inteligente, culto, interessante. Isabel I era exigentíssima com a escolha dos raros eleitos que partilhavam a sua privacidade. Acima de tudo, era um português que eu quis tratar bem, não ocultando as debilidades do seu carácter, como eu as imagino. Também não há nada que nos fale das suas relações com a família, os amigos, os colegas. Casou realmente com Sarah Anes e estava integrado na comunidade portuguesa de Londres, isso é tudo real. Mas o seu contexto familiar, a história de amor com Sarah e a grande amizade com Heitor Nunes, também uma personagem real, são romanceados. 


- A versão que chegou aos nossos dias do relato sobre Alcácer Quibir e a ocupação espanhola parece-lhe a correcta?
Não, não me parece nada correcta e deixo isso bem claro no livro. Ninguém nos contou na escola que uma boa parte da nobreza e do alto clero de Portugal foi subornada por Filipe II. Só nos disseram que ele invadiu Portugal, o que é rigorosamente verdade também. Mas até chegar à invasão, entre a batalha de Álcacer-Quibir e a entrada das forças de Filipe II, passam-se dois anos, dos quais nós praticamente nada sabemos. O que se ensina na escola é a morte de D. Sebastião, seguida da morte de Luís de Camões e a perda da independência. E tudo o que se passou entretanto? A corrupção, a compra das elites por parte do rei espanhol e a desavença entre os portugueses? É evidente que muita nobreza e boa parte da elite militar foram desbaratadas no norte de África. Mas se os pretendentes se tivessem unido, pressionado o cardeal D. Henrique, o grande responsável pela desgraça, Filipe II não teria tido a vida tão facilitada. É neste contexto que desenvolvo uma outra personagem, que me parece fascinante, o D. António, prior do Crato e outros heróis portugueses, da nobreza e do povo, que não se resignaram e se levantaram em armas contra o mais poderoso exército do mundo, mesmo sem qualquer preparação. Foram momentos de grande heroísmo que quis homenagear, digamos assim. Aliás, Portugal aparece sempre na história com uma nota de afecto, também propositada, em todos os capítulos aqui passados, no Crato, em Coimbra, Lisboa, Santarém, Peniche, Cascais ou Estoril. Alguns destes locais foram cenários reais de momentos muito dramáticos. 


- Iremos ter mais livros seus versando este mesmo tema? Já existem planos para o próximo? Podemos saber algo sobre a figura histórica?
Ainda não posso adiantar nada, apenas que estou em início de pesquisa.


- Como vê o actual estado da Literatura Portuguesa? E do Romance Histórico em particular?
Acho que a literatura portuguesa atravessa um momento de grande pujança, grande vigor, com muita qualidade. Para além dos grandes nomes consagrados da segunda metade do século XX, apareceu nos últimos 10, 15 anos, uma geração fabulosa de escritores. O romance histórico está bem e recomenda-se. Há cada vez mais autores, o género está em franca expansão e isso é óptimo. Acredito que o romance histórico capta novos leitores, as pessoas gostam muito de aprender história de forma lúdica, que é um dos grandes objectivos deste género literário. Há para vários gostos e ainda bem. A diversidade é uma mais-valia.


- O que está a ler neste momento ou leu recentemente que recomende aos leitores?
O drama da pesquisa é que se fica de tal maneira imerso em informação histórica que se tem pouco tempo para ler, mas vai-se arranjando aos bocadinhos. Por isso, não resisto a partilhar o que vou tentando ler, nos intervalos, um livro delicioso que uma amiga me emprestou há duas semanas, do Bill Bryson, que escreveu há uns anos a Breve História de Quase Tudo. Este chama-se Em Casa. Um livro diferente, vale a pena.


- De todas as actividades que já desempenhou, qual a que a preencheu mais?
Do passado, talvez a grande reportagem, em televisão, e a reportagem alargada na imprensa. Mas guardo memórias maravilhosas dos anos de ensino. Tenho uma admiração imensa pela figura do educador, do professor. Foi uma grande entrega, eu ensinava português e francês, duas disciplinas normalmente odiadas, como a matemática, e, por isso mesmo, foi muito difícil mas muito gratificante. Vivia intensamente as dificuldades dos alunos, esforcei-me sempre por simplificar, acho que é esse o caminho. Acredito que um professor consegue fazer milagres. De vez em quando, sinto saudades da televisão mas adoro o que estou a fazer agora. Talvez seja esta a actividade que mais me preenche.


- Que balanço faz da sua participação no Canal Parlamento? A nossa democracia está de boa saúde?
Foi insuficiente, saí por minha vontade, por motivos de saúde e de princípio, recusei-me a vir para casa com uma baixa de longa duração, sou ferozmente contra isso, excepto em casos muito graves, mas saí com grande frustração e pena. Sempre sonhei fazer reportagens no Canal Parlamento. Pequenos documentários também, há muitas formas de aproximar os cidadãos do seu Parlamento e dar a conhecer o que ali se faz. Quanto à democracia, são os cidadãos que devem controlá-la. Avançou-se muito em Portugal porque tínhamos um grande atraso mas a democracia é um trabalho permanente, nunca nos devemos alhear porque isso seria matá-la. A democracia vem da população. Votar é um dever, é o principal dever. Outro é participar mais. As pessoas têm imensa força, todas as conquistas da humanidade se deram com muito, muito esforço. Devíamos abandonar a nossa zona de conforto. Choca-me que exista em Portugal ainda tanto medo. É talvez das coisas que mais me choca. Ainda se vive amordaçado em Portugal.


- Depois de ter vivido nos Estados Unidos e em Macau, como olha para a Europa e para Portugal em particular?
Precisamente por ter vivido nos Estados Unidos e na Ásia, acredito profundamente no ideal europeu. Acho a União Europeia uma conquista maravilhosa, juntar quase 3 dezenas de países com línguas, história, culturas diferentes, que se guerrearam durante séculos, é um exemplo para a humanidade. A Europa é pioneira nas lutas pela liberdade, pelos direitos humanos, como a época de Isabel I bem mostra. Acho que se deve fazer tudo, tudo para salvar a Europa. Mas sou muito crítica, há muitos anos. A guerra nos Balcãs devia ter acordado a União Europeia, incapaz de resolver um conflito brutal, um genocídio, às suas portas que, ainda por cima, era mostrado em directo e a cores pela televisão diariamente. Foi terrível assistir à ineficácia das negociações durante anos. Acredito nas capacidades do ser humano. Acredito em Portugal também. Vivemos momentos muito difíceis mas se há coisa em que os portugueses são especialistas é a sobreviver a crises. Tenho de reconhecer que até um optimista como eu às vezes desespera...mas quero terminar com uma nota positiva e dizer que acho que existe um génio português.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

À conversa com Cristina Torrão (parte 2)

Na segunda metade desta entrevista reuni as perguntas que se debruçaram mais sobre aspectos que vão além da escrita, embora partindo - ou regressando - inevitavelmente dela.
Tentei tocar também a experiência da autora enquanto trabalhadora portuguesa no estrangeiro e usufruir do seu conhecimento adquirido e ela teve a simpatia de partilhar diversos aspectos que podem ser úteis nos tempos que o nosso país vive.




- Como é para uma escritora Portuguesa, viver e trabalhar num país estrangeiro?
Não é muito fácil, pois sinto que, se estivesse em Portugal, poderia fazer mais pela divulgação dos meus livros, por exemplo, estar mais vezes presente em Feiras do Livro (e não só Lisboa e Porto); visitar bibliotecas; ir a apresentações de outros livros, estabelecendo contactos úteis; oferecer-me para sessões de leitura nas escolas, etc. Assim, resta-me a internet.
Do ponto de vista pessoal, adaptei-me bem à vida na Alemanha, país que, no seu sentido prático, facilita muitos aspectos do dia-a-dia.


- Devido à crise há muitos portugueses a pensar (novamente) sair para fora do pais, sendo que um dos países preferidos é a Alemanha. Como foi a sua adaptação dela e que aconselha a esses portugueses, sobretudo os pertencentes a áreas próximas da sua?
A adaptação a um país estrangeiro nunca é fácil, mas depende em que circunstâncias se faz essa opção. No meu caso, foi por ter casado com um alemão. Esse facto, aliado ao conhecimento que já tinha da língua, facilitou a adaptação. Quem não conhece a língua terá imensos problemas na Alemanha, pois é raro encontrar alguém que fale inglês, ao contrário da Holanda, por exemplo, em que se pode falar inglês em todo o lado. Quem vier sozinho para um país estrangeiro, precisa de ter uma personalidade muito forte para aguentar os primeiros tempos de solidão. Depende do trabalho que fizer. Se, por exemplo, der aulas de português e tomar contacto com outros portugueses, é claro que terá a vida facilitada.
Antes de ir para um país estrangeiro, a quem não tiver lá ninguém para dar uma certa orientação, aconselho a informar-se de que tipo de mão-de-obra esse país precisa. Para gente da minha área, que pretende dar aulas, o melhor é tratar disso em Portugal, pois os professores de português que aqui trabalham são enviados pelo nosso Ministério da Educação. Agora, com a crise, não sei como está a situação. Dar aulas de português a alemães, em escolas de línguas, como já fiz, é interessante e mantém a pessoa ocupada, mas não se ganha o suficiente para se ser independente (é mais um dinheiro extra para quem já tenha a vida assegurada).
Também ajuda ter uma mentalidade aberta, capaz de assimilar, sem grandes problemas, outros usos e costumes. E outras comidas. Há gente muito saudosista, que só gosta de bacalhau com batatas, ou de feijoadas. Não irá encontrar esse tipo de pratos na Alemanha, embora também se aprecie por aqui a cozinha internacional. Mas as preferências vão para a italiana, a grega e a incontornável chinesa. Aqui, também não se encontra grande compreensão para falta de pontualidade, ou falta de disciplina.


- Como é ensinar língua Portuguesa num país como a Alemanha? Existem muitos Alemães interessados na aprendizagem do Português?
Os alemães têm muita dificuldade em aprender a língua Portuguesa. A Alemã também é muito difícil e nós temos tendência para achar a nossa mais simples, mas, na verdade, quando uma pessoa se vê na situação de ensinar o nosso idioma, dá-se conta das dificuldades que ele apresenta. Por exemplo, um dos problemas no Português é o facto de a forma plural também ter género (feminino e masculino); outro, são as formas verbais, cada pessoa gramatical tem uma forma diferente e há inúmeros verbos irregulares; além disso, há três tipos de conjugação, conforme o infinitivo dos verbos termine em “ar”, “er”, ou “ir”. São coisas em que não pensamos, mas que, para estrangeiros, se torna num enorme quebra-cabeças.
Não há muitos alemães interessados na aprendizagem do Português, nada que se compare ao Castelhano (Espanhol), cujo interesse é muito grande, quase ao nível do Inglês, ultrapassando, de longe, o Francês. Embora seja a 5ª ou a 6ª língua mais falada no mundo, o Português é visto, aqui, mais como uma língua exótica, não se faz ideia de que há tantos milhões de pessoas a falá-la. Sinto muito desiludir todos aqueles que pensam que a nossa língua é considerada muito importante, mas é um facto que não é.


- O seu primeiro livro foi “A Moura e o Cruzado”, mais tarde reeditado como “A Cruz de Esmeraldas”, foi muito difícil encontrar quem editasse os seus livros?
Foi dificílimo, demorou anos, tenho uma grande colecção de recusas. E, no entanto, não havia nenhum romance sobre D. Afonso Henriques, perguntava-me mesmo como é que ainda ninguém tinha tido a ideia. Confesso que alimentava a esperança de ser eu a primeira, mas, entretanto, saiu o romance de Maria Helena Ventura, Afonso o Conquistador. Quando o vi à venda, pensei em desistir, senti-me muito sozinha, sem apoios, sem saber para onde me virar. Mas esse desânimo durou pouco tempo. Eu acreditava nas minhas capacidades e resolvi não desistir. Até porque escrevera, entretanto, A Moura e o Cruzado e decidi enviar o manuscrito para um concurso literário organizado pelo Continente, em parceria com a Visão e a editora Asa. Estive para não o fazer, ao constatar, no regulamento, que se limitava a residentes em Portugal. Por outro lado, o pior que me podia acontecer era ser desclassificada. Afinal, entre isso, e não ganhar o concurso, não havia grande diferença.
Acabei por ganhar, o que me abriu, não as portas, mas uma porta, aliás, pequenina. Mas há-de aumentar de tamanho. E hão-de surgir outras.


- Como vê o panorama literário Português? Existem algumas semelhanças com o que passa na Alemanha?
Sim, hoje em dia, a cultura está muito uniformizada. Também se nota aqui a preferência pela literatura light, os nomes sonantes, ou os livros susceptíveis de causar escândalos. A grande diferença está em que o mercado é muito maior, a Alemanha tem cerca de 80 milhões de habitantes, sem incluir a Áustria e a Suíça. Há mais editoras, mais escritores, mais livros, a oferta é muito maior, embora, verdade seja dita, a portuguesa, em termos proporcionais, também seja bem grande. Outra diferença será que, aqui, não se traduz tanto, editam-se mais nacionais, e existe uma oferta enorme na não-ficção, cobrindo todos os temas possíveis e imaginários. Procura-se um livro sobre jardinagem, cães, religião, ou até como editar um livro, e encontram-se logo dezenas.


- Há algum período em particular da história da Alemanha ou algum personagem histórico desse país que a fascine em particular?
Bem, antigamente, interessava-me muito pela fase do nazismo e da 2ª Guerra Mundial, principalmente, pela perspectiva alemã. Constatei que há alguns idosos saudosistas, mas a maior parte das pessoas abomina Hitler e tudo o que ele causou. Desde que comecei a pesquisar a época medieval com intensidade, há cerca de dez anos, claro que também me interessei pela Idade Média alemã. Há uma personagem muito marcante do século XII, Frederico Barba-Ruiva, que se tornou imperador do Sacro Império Romano-Germânico. A História Medieval alemã é um pouco complicada, porque a Alemanha nunca foi um reino como Portugal. Para simplificar, digamos que era um conjunto de principados, ducados e condados, que abrangia grande parte da Europa Central e até da Itália. E era nomeado um Imperador, pelo Papa, representante do catolicismo, para fazer frente ao Imperador Bizantino, cristão ortodoxo. Frederico Barba-Ruiva é o Imperador mais marcante da Idade Média.


- Dado que o público alemão é muito mais vasto, não pensa também tentar entrar no mercado editorial alemão, seja com um livro originalmente escrito em alemão (e eventualmente com um tema local) ou com um dos seus livros já publicados traduzido para alemão?
Sim, claro que penso nisso, mas é muito difícil. Não posso contar com a ajuda da editora para esse fim, pois até para os grandes grupos editoriais portugueses é dificílimo introduzir um escritor português nos mercados estrangeiros, mesmo que se desdobrem em contactos e operações de charme, como acontece na Feira do Livro de Frankfurt.
Eu tenho a vantagem de saber alemão, mas é complicado traduzir para uma língua que não é a nossa. Com a ajuda do meu marido, porém, traduzi “A Cruz de Esmeraldas” e estou a tentar arranjar um agente literário que se interesse pelo livro. Enviá-lo directamente às editoras não adianta nada, calcula-se que se publicam 0,01% dos manuscritos que são enviados por gente desconhecida.
Se, por um lado, o mercado alemão é muito mais vasto, se publicam muitos mais livros (mais de 100.000 por ano) e haja editoras sem fim, por outro, também há muito mais gente a escrever. Além do trabalho habitual, as editoras recebem dezenas de milhares de manuscritos com pedido de publicação por ano!


- E ao nível de outros episódios da História Mundial mais divulgados, pretende enveredar por esse meio o que podia eventualmente permitir ter uma carreira mais internacional?
Sim, esse é o problema. Para publicar na Alemanha deverei optar por temas da História alemã? Bem, aqui também há interesse pela História de outros países, mas, normalmente, pela de Inglaterra, Itália, ou países de leste, como a Rússia. Há espanhóis que também vendem bem. Sobre a História de Portugal, nunca vi nada, é um tema muito específico, nada internacional.


- O grande Sonho da sua vida é escrever? Tem outros grandes sonhos para além da escrita?
Sim, é. Já tive outros sonhos. Em jovem, gostava muito de música e de cantar e sonhava fazer carreira nesse ramo. Cheguei a cantar em coros, mas não tinha à-vontade suficiente para ser solista. Depois, desejei ser realizadora de cinema, mas era um sonho muito difícil de concretizar, porque não sabia para onde me virar, quem contactar. De maneira que, quando descobri esta minha vocação para escrever, pensei: este sonho é mais realizável, vou em frente! O Manuel Cardoso, do blogue Dos Meus Livros, disse que a minha escrita é cinematográfica, pelo que acabei por me aproximar do outro sonho…


- Apesar de haver um número reduzido de escritores que vivem apenas da escrita, esse é um dos seus objectivos?
Não penso que possa algum dia viver exclusivamente da escrita. O que não quer dizer que deixe de escrever.


- Alguma vez sentiu aquele assomo da página em branco ou é algo que flui naturalmente?
Até agora, tem fluido tudo muito naturalmente. Um romance escreve-se aos poucos, cena a cena. Quando começo a escrever uma cena, já sei como vai acabar, mas os pormenores surgem na altura da escrita. Às vezes, é difícil fazer a ponte de ligação entre as cenas. E o romance histórico, como eu o escrevo, tem ainda a dificuldade de se apresentarem os factos de forma sucinta, sem se tornarem maçadores. Tenho de fazer uma selecção muito precisa daquilo que vale a pena ser dito, prescindindo daquilo que, apesar de ser interessante, pode começar a maçar. Nem sempre fico satisfeita com o resultado. Principalmente, no romance do D. Dinis, tive problemas, devido à quantidade de leis, reformas e medidas que o Rei Lavrador decretou e pôs em prática.


- Disse que gostava de ser realizadora, então qual dos seus livros gostaria eventualmente de ver adaptado ao cinema?
Gostava de ver a vida de D. Afonso Henriques adaptada ao cinema, mas acho que interessaria, acima de tudo, aos portugueses. O melhor mesmo era uma série televisiva.


- Se essa oportunidade lhe fosse apresentada em Portugal que colaboradores escolheria então?
Não sei porque, vivendo há 19 anos no estrangeiro, sou muito ignorante quanto aos nomes actuais do cinema português.


- Que conselho daria a quem decida enveredar pela área da escrita?
Alguns:
Se não consegue conceber a sua vida sem escrever, não desista! É preciso insistir muito para se conseguir publicar, não se deixando abater pelas recusas.
Seja disciplinado e exigente, enquanto não estiver satisfeito com o texto, corrija-o, nem que sejam mil vezes! Se não gosta de alguma passagem, ou de alguma cena, mas pensa: “não faz mal, vai mesmo assim, no conjunto, não se nota”, está a seguir o caminho errado!
Se não lhe ocorre outra solução para a passagem, ou a cena, problemática, apague-a! Não tenha problemas em apagar, mesmo que doa. Li, uma vez, que o melhor amigo do escritor é o cesto dos papéis.
Não espere enriquecer com a escrita! Um número ínfimo de escritores consegue viver da escrita, os que enriquecem são ainda menos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

À conversa com Cristina Torrão (parte 1)

Apesar de já há algum tempo estar pronta, só agora vê a luz do dia a entrevista que tive o prazer de ir realizando numa troca de emails com Cristina Torrão, autora que já tinha dado um excelente contributo ao blogue quando ofereceu exemplares autografados do seu livro D. Dinis - A quem chamaram o Lavrador.
Falei desse livro e, igualmente, de A Cruz de Esmeraldas aqui e aqui, respectivamente. Foram duas excelentes leituras e, por isso mesmo e por ser uma aficcionada de História e Romance Histórico, tinha muito a perguntar.
O resultado, devido à simpatia e disponibilidade da autora, é muito interessante e espero que o apreciem.




- O facto de viver e trabalhar na Alemanha, alimenta de alguma forma a nostalgia pela cultura e história Portuguesas, ao ponto de todas as suas obras se basearem nelas?
Talvez, mas não será a razão principal. Comecei a interessar-me pelo romance histórico aqui na Alemanha, onde, há 20 anos, era já um género literário a vender muito bem. Em Portugal, também já existia, mas não na mesma quantidade e, sobretudo, nesta forma, em que as personagens históricas se tornam mais acessíveis, vistas como seres humanos comuns. Comecei a ler, nomeadamente, os romances de Sharon Penman, em língua Inglesa, apaixonando-me pela História das ilhas britânicas, sentindo vontade de pesquisá-la e de escrever algo semelhante. Mas depois perguntei-me: porque haveria eu de escrever sobre um país que mal conheço e onde irei eu buscar as fontes de pesquisa? A época medieval portuguesa não será também apaixonante? A vida do nosso primeiro rei, do fundador da nacionalidade, não daria para escrever um romance interessante? Na verdade, eu, na altura, sabia muito pouco sobre o assunto, via, como todos os Portugueses, D. Afonso Henriques apenas como um guerreiro. Comecei a perguntar-me se seria mesmo assim, quais teriam sido as paixões da sua vida, etc. Por acaso, nessa altura (pelo ano 2000), saiu a primeira biografia de D. Afonso Henriques, escrita pelo Prof. Freitas do Amaral, iniciativa, que, na minha opinião, acabou por despoletar a colecção da Temas e Debates, sobre as biografias dos reis portugueses. Ao ler o livro do Prof. Freitas do Amaral, fiquei siderada com as várias facetas de D. Afonso Henriques, tive aquela sensação de que a matéria dava “pano para mangas”. O romance começou a desenhar-se na minha cabeça. E assim se iniciou esta aventura.


- Porquê o romance histórico? Nomeadamente a época medieval? Os seus romances versam figuras e factos da nossa história, tem algum fascínio pela história medieval Portuguesa?
Bem, já respondi a parte desta pergunta na anterior. O meu fascínio pela época medieval, em geral, vem da minha adolescência, quando comecei a gostar de filmes sobre a Idade Média. O fascínio pela história medieval portuguesa, em concreto, só surgiu quando comecei a pesquisar para as minhas escritas, antes disso, sabia muito pouco.


- Iremos ter mais livros seus versando este mesmo tema? Já existem planos para o próximo? Podemos saber algo sobre a figura histórica?
Sim, ficarei neste tema, nomeadamente, no século XII, a época de D. Afonso Henriques, a que mais me fascina. Interessa-me também o povo comum, pergunto-me que impacto tiveram nele acontecimentos como a Batalha de Ourique, a Conquista de Lisboa, ou mesmo o desastre de Badajoz. Felizmente, nos últimos anos, têm surgidos livros sobre a vida privada, como “Naquele Tempo”, do Prof.José Mattoso, ou a “História da Vida Privada em Portugal”, projecto em que participam vários historiadores. O meu próximo livro não terá uma personagem histórica, como principal (como aliás já aconteceu em A Cruz de Esmeraldas), mas alguém que se vê envolvido nos acontecimentos que se deram entre os anos 1138 e 1147. Foi uma época incrível, cheia de mudanças! É esse vibrar, essa espécie de revolução, que eu tenciono reavivar, porque, ao aprendermos a História, é tudo muito seco, do tipo: em 1139, deu-se a Batalha de Ourique; em 1147, D. Afonso Henriques conquistou Santarém e Lisboa. Apenas assim, como se estivesse tudo planeado. Não estava. As pessoas envolvidas não faziam ideia de como essas aventuras iriam acabar, nem sequer nos sarilhos em que se iam meter. Os movimentos que provocaram devem ter sido impressionantes. Imagine a Joana que vivia no Porto, em 1147, e que, um dia, começavam a chegar, ao cais da ribeira, naus cheias de cruzados! Apenas um pormenor, na História, que, no entanto, representou o mudar de vidas inteiras.


- A Idade Média portuguesa não foi apenas rica em personagens históricos masculinos, mas também femininos. Apesar de alguns deles existirem nas suas obras como personagens, os protagonistas são em maioria homens.
Já pensou em escrever sobre alguma protagonista feminina, como por exemplo a D. Teresa, a Rainha Santa ou D. Inês, que parecem despertar bastante o interesse do público?
Eu pensei escrever sobre a Rainha Santa, mas a editora sugeriu escrever sobre D. Dinis, pois tinha sido publicado, havia pouco tempo, “Onde vais, Isabel”, de Maria Helena Ventura.
O romance que estou a escrever tem uma protagonista feminina, mas não se trata de uma figura conhecida, pois resolvi homenagear as mulheres medievais incógnitas. A minha heroína é uma moça do povo do século XII, oriunda do vale do Douro e que se vê envolvida em acontecimentos históricos da época, como a Batalha de Ourique, ou a Conquista de Lisboa.
D. Teresa daria um excelente romance, sim, é uma ideia...


- O rigor histórico tão presente nos seus livros, é evidentemente fruto de muito trabalho, preparação e pesquisa, quanto tempo leva normalmente a pesquisar para um livro?
É difícil encontrar uma fórmula para cada livro, porque é variável. Para o primeiro (D. Afonso Henriques), levou muito tempo, porque, como já disse, eu sabia pouco. Pesquisei e escrevi ao mesmo tempo, levou uns três anos. Já depois de o ter enviado a algumas editoras (recebendo recusas), continuava a pesquisar, porque descobria sempre livros com novas informações, e modificava certas partes do romance. Entretanto, surgiu-me a ideia para A Moura e o Cruzado e resolvi escrevê-lo, já que não estava a ser bem sucedida com o outro. A escrita deste não demorou muito (é mais pequeno), três a quatro meses. Depois de ter ganho o concurso, surgiu a biografia de D. Afonso Henriques, da autoria de José Mattoso e, depois de a ler, tornei a reescrever o romance.
Para o D. Dinis, pesquisei durante cerca de um ano. O facto de já existir a biografia, da autoria de José Augusto Pizarro, facilitou-me muito o trabalho. O livro demorou sete ou oito meses a escrever.
Tudo depende do tempo que se tem. Eu escrevo de 10 a 12 horas por semana.


- Depois de tudo o que aprendeu durante as pesquisas que efectuou, para escrever os seus livros, com que ideia ficou dessas figuras da nossa história?
Tanto D. Afonso Henriques, como D. Dinis, são homens perfeitamente enquadrados nas épocas em que viveram. Nem D. Afonso Henriques foi sanguinário e violento demais, nem D. Dinis tão mulherengo como se diz. Ambos foram inteligentes, corajosos e bons diplomatas, mesmo o primeiro rei. Marcaram uma época, são, sem dúvida, os dois monarcas mais importantes da nossa Idade Média. Para isso, também contribuiu o facto de os seus reinados terem sido longos. D. Afonso Henriques é mesmo um caso notável de longevidade, podemos concluir que gozava de uma saúde de ferro. D. Dinis teria sido vítima de excessos que, na época, não se sabia fazerem mal, pois não havia análises ao sangue, nem se media a tensão arterial. Era poeta, mais um homem de relações pessoais e de gabinete; D. Afonso preferia a acção, mas eu acho que também foi um homem sensível, com, aliás, se nota no meu livro.


- Sente-se na sua obra uma vontade de mostrar o lado mais humano de cada personagem, isto é propositado? Qual a sua real intenção?
Trata-se do meu principal objectivo. Pela sua obra e pela distância no tempo, essas personagens históricas tornaram-se mitos, seres especiais, mesmo divinos. Mas eram humanos, como todos nós. Eu também não sei como eram, apenas chamo a atenção para esse facto, ao dotá-los de conflitos interiores e emoções.


- Qual dessas grandiosas personagens históricas a impressionou mais, e porquê?
Pelos motivos mencionados, D. Afonso Henriques. D. Dinis foi um grande rei, mas “limitou-se” a dar continuidade à obra do pai. D. Afonso III tinha posto ordem no reino, fazendo muitas reformas legislativas. E, apesar de não ser poeta, foi ele que introduziu o trovadorismo na corte. D. Afonso Henriques iniciou algo de novo, fundou uma nacionalidade, que, quase 900 anos depois, ainda existe.


- E alguma delas a decepcionou do ponto de vista humano? Ou isso não aconteceu?
No geral, não me decepcionaram, pelo contrário: a partir dos factos históricos, julgo ter descoberto facetas sensíveis que ninguém supunha. Mas, já que falamos nisso, penso que D. Dinis me decepcionou um pouco na maneira como lidou com o seu filho e herdeiro. Nessa época, educavam-se as crianças de maneira diferente e era inclusive de bom-tom que monarcas mantivessem uma certa distância, não mostrando os seus sentimentos. Mas não teria ele maneira de evitar que o filho se empenhasse tanto na sua luta contra o pai? Porque beneficiou ele tanto o seu ilegítimo, Afonso Sanches? Penso que, no conjunto da sua obra magnífica, essa foi uma grande falha do Rei Lavrador.


- Se pudesse devolver a vida a uma delas neste exacto momento, qual escolheria?
D. Afonso Henriques, pelos motivos apresentados e para ver se acertei, em alguns aspectos, no que diz respeito à sua faceta humana. E talvez também D. Egas Moniz. Sempre gostava de saber se ele foi mesmo de corda ao pescoço apresentar-se a D. Afonso VII de Leão e Castela...


- Mudando um pouco de tema, qual dos seus livros lhe deu mais prazer escrever?
Bem, como já disse antes, a minha época preferida é o século XII. Por um lado, por ter marcado o início da nacionalidade. Por outro, porque gosto mais da alta Idade Média, parece-me “mais medieval”. Embora o século XIII ainda pertença a esse período, D. Dinis nasceu já na segunda metade e já há uma certa transformação, o embrião daquilo que desembocará no Renascimento. Acho os séculos anteriores mais românticos, costumo dizer que gosto mais de cotas de malha do que de armaduras. As cotas de malha têm um toque sensual, adaptam-se ao corpo de quem as usa, apesar de serem de ferro e pesadíssimas. Mas são como renda, um rendilhado de ferro. Acho as armaduras, tipo carapaça, simplesmente horríveis. Por isso, gostei realmente mais de escrever sobre D. Afonso Henriques do que sobre D. Dinis, que foi, aliás, uma sugestão da editora. Embora eu ache que evoluí na linguagem, o que me faz pensar que o último romance (D. Dinis) está mais bem escrito.
Depois, há o aspecto de escrever sobre uma personagem histórica e uma fictícia. Livros como A Cruz de Esmeraldas, ou o que iniciei agora, dão mais liberdade, o enredo tem mais hipóteses de se desenvolver por si próprio. Escrevendo sobre um rei, tenho de me sujeitar a um percurso de vida “programado”, o que nem sempre é fácil, pois vejo-me na situação de arranjar uma lógica para atitudes que, às vezes, se me afiguram difíceis de explicar.


- Quais são os seus escritores favoritos? Tem algum livro a que chame, “o livro da minha vida”?
Indico sempre o Eça de Queirós como escritor favorito. O livro que mais vezes li é, sem dúvida, Os Maias (umas quatro ou cinco vezes). Adoro o poder de observação de Eça de Queirós, aqueles detalhes que tudo dizem (os “cigarros pensativos”, o “papá Monforte entalado na sua gravata”, “a coxa gorda do Dâmaso a estalar nas calças”)… Também gostei muito de ler Anthony Throllope, um inglês, um pouco anterior a Eça. Notei parecenças entre os dois. Como Eça de Queirós é posterior e era grande apreciador da cultura britânica, acho possível que se tenha inspirado um pouco em Throllope, embora nunca tenha visto referência a isso em lado nenhum.
Refiro ainda Sharon Penman, cujos romances históricos me levaram a começar a escrever, nomeadamente, o livro intitulado Here be Dragons. Sob este ponto de vista, talvez seja Here be Dragons o livro da minha vida.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

À conversa com António Cândido Franco

Foi há cerca de um ano que primeiro tive contacto com a obra deste autor português mas foi depois de ler o seu mais recente recente romance, Os Pecados da Rainha Santa Isabel, que senti uma vontade de aprofundar o conhecimento que tinha sobre o autor.
Essa sua obra, inteligente e desafiante, é uma p0rta estreita para uma sala ampla repleta de conhecimento. Esta entrevista dá alguns passos por ela dentro.
Foi conduzida via email e o resultado é um conjunto de considerações muito interessantes. O meu agradecimento ao autor pela sua disponibilidade!





- Porque decidiu escrever sobre a Rainha Santa Isabel?
Mário Cesariny em conversa que teve comigo em Dezembro de 1997 chamou-me a atenção para as relações que Isabel de Aragão tivera com Arnaldo Vilanova, um pensador herético que lhe interessava há muito, a ele, Mário Cesariny, e a quem muitos anos antes dedicara um poema. Os Poetas têm impressões de alma, breves como um verso, que valem um tratado de muitas páginas da mais pura Ciência. De resto, a leitura, pela mesma época, dos quadros dramáticos de António Patrício, em Dinis e Isabel, terá ajudado a calar em mim tão estupenda figura. No mesmo sentido correu a leitura da reedição de Titânia, História Hermética em Três Religiões e Um Só Deus Verdadeiro com Vistas a Mais Luz como Goethe Queria, com nota final inédita, em que Mário Cesariny discorre sobre Isabel de Aragão.

- Isabel de Aragão tem, como diz, "aspectos heréticos na sua espiritualidade". Esta heresia faz de Isabel uma figura única na história portuguesa?
Único é aquele que vive para si, sem nome, sem figura, sem estirpe. Isabel de Aragão deixou uma vasta descendência, menos carnal do que psíquica, que fazem dela uma precursora dum vasto movimento cultural, tão largo que chegou até nós, mau grado as tentativas de erradicação por parte do tribunal inquisitorial. O ideário dos Descobrimentos, tal como se formou nos reinados do Eloquente e do seu filho, bem expressos na pintura de Nuno Gonçalves ou em certos passos da prosa de Fernão Lopes, tem uma dívida imensa para com a espiritualidade heterodoxa de Isabel de Aragão.

- Procura na sua obra ter um olhar "revelador" sobre estas facetas menos conhecidas de figuras do nosso passado?
As figuras do passado só revivem através de focos que as desnudem nos seus propósitos mais recônditos e desconhecidos. Só a revelação do segredo reconstrói uma alma como arquétipo indelével. E só o arquétipo interessa a Poesia.

- Em obras anteriores escreveu sobre Inês de Castro e Leonor Teles. Que relação estabelece entre estas três mulheres da Idade Média?
Estamos a falar de três gerações de mulheres, que ocuparam todas três a mesma posição na corte portuguesa, em momentos sucessivos, no curto espaço de pouco mais de meio-século, vivendo nos mesmos espaços e com certeza com valores e comportamentos muito próximos. Atente-se na importância que um desses espaços, Santa Clara de Coimbra, tem no itinerário de duas destas mulheres: é fundado por Isabel de Aragão nos primeiros lustros do século XIV e ressacralizado por Inês de Castro três, quatro décadas após, no momento da sua execução, inumação e exumação, esta na exaltante cerimónia do beija-mão da rainha-morta, cujo rasto escrito remonta ao derradeiro capítulo da Crónica de Dom Pedro de Fernão Lopes, escrita ainda no reinado do segundo filho do Justiceiro.

- Alguma outra figura feminina da Idade Média Portuguesa que gostasse de abordar na sua escrita?
As filhas de Sancho I, uma fundadora de Celas e outra dos franciscanos de Alenquer, são figuras invulgares, a merecer atenção. E Mécia, rainha de Portugal, esposa de Sancho II, é uma figura trágica e poderosa.

- Tem um interesse específico por esta época (Idade Média)?
A Idade Média é uma das raras idades, se não mesmo a única, pelo menos no contínuo histórico do Ocidente, que foi estática. O tempo, que é o acelerador da História, o anti-ansiolítico por excelência, era quase desconhecido. Ora acelerar a História é perder a possibilidade de sair fora de si, é viver em permanente angústia. Quem não sai fora de si não conhece o êxtase, que foi o apanágio de todas as culturas humanas anteriores ou laterais à História. A Idade Média, pela proximidade sensível a que está de nós, tão perto que lhe podemos tocar com os dedos, é uma fonte de sonho, um modelo inspirador duma outra forma de viver mais exaltante, menos egoísta, mais duradoira.

- Nos seus livros História e lenda cruzam-se. Porquê?
A História sem a Lenda é como um corpo sem espessura psíquica. A História é uma fisiologia mecânica, que apenas nos dá a conhecer, quando outras intenções não se intrometem, o movimento das formas. Para haver um organismo que seja mais do que um autómato mecânico precisamos duma alma. A Lenda, tão viva nas suas ideações, é a alma da História.

- Para além dos romances históricos tem também uma vasta obra ensaística e escreve poesia. Tem predilecção por algum campo da escrita?
Platão diz no Fedro – ou diz Sócrates por ele – que há duas espécies de Loucura, a fisiológica, que merece tratamento médico, e a divina, que é uma possessão e uma graça. Entre a Loucura divina distingue quatro tipos: a mística, sob a inspiração de Dionisos; a profética, debaixo do influxo de Apolo; a amorosa, orquestrada por Eros e Afrodite; a poética, sob a influência das Musas, antes de mais Calíope, mãe de Orfeu e de Camões. Tanto faz que se escrevam versos ou linhas de prosa, ensaios ou poemas, romances históricos ou diálogos dramáticos, o que importa é a possessão. À luz deste critério, não há genéros, tudo é o mesmo.

- Escreveu sobre Teixeira de Pascoaes. É um escritor que o marcou e o influenciou?
Teixeira de Pascoaes é o melhor exemplo que conheço dum poeta possesso ou enlouquecido pelo génio divino. A sua obra é um incêndio gigantesco que continuará até ao fim do mundo a consumir o sangue da humanidade. Mário Cesariny viu nele um poeta mais importante do que Fernando Pessoa.

- E Florbela Espanca?
Outra possessa. Vale tanto como a Sibila de Delfos. Bem podemos ir a Vila Viçosa todos os anos, a 8 de Dezembro, dia do seu nascimento e da sua morte, deixar uma rosa em memória desta filha eleita de Calíope.

- Como e quando é que começou a escrever?
Foi com os materiais arrepiantes das primeiras leituras – Zorro, Texas Jack, Tintim, os Cinco, os Sete, os romances que a Portugália Editora publicava numa colecção chamada “livros para rapazes, muito Alexandre Dumas e muito Adolfo Simões Müller – que ideei a primeira escrita.

- Que outras influências tem na sua escrita?
A dos escritores selvagens. Aqueles que não pretendem (só) escrever bem, numa tradição erudita, academizante, artística e antropofágica, mas construir a escrita sobre as sobras vivas dum acto mágico. São esses os escritores que me interessam. Dou dois exemplos: Luiz Pacheco e António Gancho.

- Como vê o actual estado da Literatura Portuguesa?
A chamada República das Letras é uma treta. Escritores médios, ou mesmo medíocres, como José Saramago ou José Echegaray, ganham o Nobel, e outros geniais, como Agustina Bessa Luís, Herberto Hélder ou Raul Brandão vivem retirados, quase apagados, alguns inéditos. Não é atributo nosso – já Camões foi preterido por Pedro de Andrade Caminha – mas das épocas clássicas, utilitaristas, incapazes duma obra colectiva. A lei do mercado actual asselvajou o processo, levando a desmandos incalculáveis. Livros nulos – merda em forma de página – voam às dezenas de milhar de exemplares (basta para isso que o seu autor seja presença popular na televisão); livros geniais, como os de Agustina e os de Hélder, ficam-se por umas centenas ou uns escassos milhares.

- Para além de escritor é também Professor Universitário. Como é que as rotinas dessa profissão o influenciam ou ajudam no processo de escrita?
A Escola é um relógio de Fábrica; em vez de badaladas de bronze tem campainhas estridentes. A Poesia é uma ampulheta silenciosa, cuja areia marca apenas a duração do ritmo. Nem sempre mundos assim distintos podem conviver em paz.

- Pode-se esperar por novas incursões suas pelas figuras marcantes da idade média portuguesa? Serão sempre as femininas ou haverá modelos masculinos que lhe interessam?
A História da Civilização Ocidental escondeu durante séculos a Mulher. Tirando um curto período da Idade Média, responsável pela primeira leva de emancipação feminina, no seio da qual se gerou a agitação da poesia trovadoresca, em particular as cantigas de Amigo, de enunciação feminina, a Mulher não foi vista nem achada no horizonte da nossa cultura. Daí o seu fascínio, pois a fantasia só se exerce sobre aquilo que está escondido. Há figuras masculinas que mantém o mesmo encanto, pois tudo o que delas sabemos se revela um novelo de suposições que se desfazem ao primeiro sopro. Cristóvão Colombo é uma dessas figuras sem biografia, um segredo, um selo por abrir, que mantém inalterado o seu desmedido poder poético de sedução.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

À conversa com Juliet Marillier (parte 1)

A Planeta Manuscrito permitiu-me voltar a fazer algo que me dá enorme orgulho de apresentar aqui no blogue e foi com enorme prazer que pude estar algum tempo à conversa com uma das minhas autoras favoritas.
Muito simpática, apesar de ser já a enésima entrevista do dia, Juliet Marillier ainda conseguiu sentir-se em "dificuldades" com algumas das perguntas que tinha preparado, mesmo se está habituada a que os fãs lhe lancem todo o tipo de questões!
Espero que os restantes fãs da autora achem as perguntas e, sobretudo, as respostas interessantes. Fico à espera do vosso feedback!




- O que a levou, há mais de uma década, a tornar-se uma escritora a tempo inteiro?
Estava a trabalhar num escritório, como directora de um departamento governamental, e tive várias mudanças na minha vida pessoal e cheguei a um ponto em que queria escrever – já tinha escrito muito quando era mais nova e depois tive de ganhar a vida em diversos outros trabalhos – e eu adorava a lenda dos Seis Cisnes e decidi que adoraria escrevê-la sobre a forma de um romance com personagens ricos.
Não estava a pensar ser publicada ou em tornar-me escritora, apenas me apetecia escrever essa história e foi assim que comecei.

- O que a levou para o campo da Fantasia?
Acho que, simplesmente, caí na Fantasia. Sempre adorei Contos de Fadas e Mitologia e quando comecei a escrever foi esse tipo de coisas que escrevia.
Nessa altura não lia Fantasia, apenas queria escrever algo com muita magia envolvida.
Só comecei a descobrir o género muito tempo mais tarde quando as pessoas começaram a colocar os meus livros nessa categoria.
Não houve uma intenção particular de escrever Fantasia, apenas fui escrevendo.

- Então que autores a influenciaram mais quando começou a escrever?
Portanto, não foram escritores de Fantasia, apenas bons escritores, de todos os tipos.
Adoro o trabalho de Mary Stewart que escreveu nos anos 1970 uma excelente saga sobre Merlim e, também, autores clássicos. Adoro Shakespeare e Jane Austen e vários outros autores clássicos que estudei na escola.
Mas acho que a maior influência nas minhas histórias são as histórias clássicas dos Contos de Fadas e a Mitologia.

- Como chegou ao género de ambiente de Fantasia Histórica em que insere as suas histórias?
Acho que vem, provavelmente, dos meus antepassados serem Escoceses e Irlandeses. Apesar de ter crescido na Nova Zelândia fui educada numa cidade muito escocesa, Dunedin, e enquanto criança ouvi muitas lendas dos dois países e sempre me senti confortável a explorar esses ambientes e essas fantasias.

- Tinha concluído a trilogia Sevenwaters em 2001 e em 2008 voltou à saga com o Herdeiro de Sevenwaters. O que a fez voltar?
Na verdade, foi uma exigência dos editores e dos leitores. A trilogia tinha tido tal sucesso que todos queriam mais livros desse universo.
Apesar de ter adorado escrever todos os outros livros pelo meio e nem esperasse voltar a Sevenwaters, mal comecei a escrever Herdeiro de Sevenwaters descobri que era muito fácil voltar a mergulhar nesse mundo e trazer as personagens de novo à vida.

- Porque escolheu fazer estes novos livros como companheiros da trilogia inicial em vez de expandi-la para um quinteto de livros?
Quis fazer uma história que funcionasse por si mesma. Não me queria comprometer com uma extensão particular de livros da série – queria poder fazer um ou dois ou oito ou quantos fossem – mas há uma história que atravessará três livros – Herdeiro de Sevenwaters, Vidente de Sevenwaters e mais um livro – que é a história de Cathal e MacDara.
Há uma história ao longo dos três livros e há uma história independente para cada livro.

- Diria que foi uma decisão arriscada regressar a este universo que poderá ter-se cristalizado no coração dos leitores?
Sim, suponho que foi um pouco arriscado. Haverá sempre leitores que admiram o que escrevi na trilogia e não gostarão do que escrevo agora porque, não importa quão bom seja, nunca estará à altura do que eles sentem pelos outros livros.
Tendo dito isto, sinto que isso é a minoria dos leitores e a maioria dos leitores adoraram a trilogia e queriam voltar e estão a gostar muito dos livros novos.
Algumas pessoas dizem que estes livros estão escritos de maneira diferente e que são mais curtos e eu respondo-lhes que passaram oito anos e que aprendi muito sobre escrita e não quero fazer sempre o mesmo, quero desafiar-me a mim própria.
Por isso, ainda que estes livros sejam passados no mesmo universo, eu estou a tentar algumas coisas novas. Por exemplo, em Herdeiro de Sevenwaters cedi um pouco da narrativa a uma perspectiva masculina, dividindo-a entre feminino e masculino.

- Sente-se a voltar mais a Sevenwaters do que às suas outras sagas?
Não tenho a certeza, de momento.
Estou a escrever outra saga, chamada Shadowfell, passada na Escócia antiga e muito diferente desta. E estou a gostar muito.
Tenho mais três livros para escrever e ainda não sei o que vou fazer a seguir. Deixo-me ficar aberta às possibilidades.

- Qual a personagem da trilogia que se sente mais triste por ter de deixar para trás?
É muito difícil dizer. Muitas das personagens de que mais gosto permaneceram vivas apesar de não aparecerem nestes livros.
Eu adorava Bran e Liadan, eram provavelmente o meu casal favorito. No livro que estou a escrever agora, que sucede a Herdeiro de Sevenwaters, eles surgem apenas brevemente.
Mas evitei trazer as personagens muito fortes da trilogia para os novos livros porque senti que eles roubariam o miolo da história e queria que o novo e jovem protagonista fosse a personagem central.

- Como chegou à ideia de juntar os contos de fada com a cultura Celta?
Suponho que, com o primeiro livro, não estava muito consciente do que estava a fazer. Havia aquele conto de fadas sobre os cisnes, que eu adorava, e que assentava num ambiente Celta muito bem pois a mitologia Celta contem muitas imagens de cisnes. Apesar de ser um conto Germânico, servia muito bem aquele ambiente.
Mas acho que, na altura, não pensei nisto com cuidado, apenas comecei a escrever e lá estava esta união.

- Qual é o seu método de pesquisa para estes universos?
Leio muita História mas já cometi erros, sobretudo naqueles primeiros livros, mas na altura não me apercebi que estava a escrever Fantasia e que seria tão importante que a História estivesse correcta.
Mas aprendi com os meus erros e agora leio a História dos meus cenários a fundo e leio sobre Mitologia.
Como agora vivo na Austrália tenho igualmente de estudar a paisagem, as plantas, os peixes, as Estações… Tudo sobre viver naquele clima e naquela cultura.
Só visitei a Irlanda uma vez, portanto fiz muita da pesquisa em livros, mas para os livros Escoceses já voltei à Escócia várias vezes e fiz a pesquisa no local.

- Como encontra os cenários propícios às suas histórias? A Mitologia chega primeiro ou as personagens chegam primeiro e tem depois de encontrar o espaço apropriado para elas?
É diferente para os diferentes livros. Por vezes é algo do quotidiano que faz surgir a história, uma situação sobre a qual leio, algo comum do mundo actual mas dramático e que sinto ser uma excelente base para uma história.
Por vezes é algo que leio num livro de História e outras vezes algo de um conto de Fadas ou da Mitologia.
Normalmente muitas coisas diferentes combinam-se para construir a história.

- Porque faz das suas personagens tão contemporâneas na sua mentalidade apesar de estarem inseridas numa época mais restritiva?
Elas são bastante contemporâneas em muitos aspectos. É muito difícil conseguir isso, sobretudo com Sevenwaters que se passa muito no início da Era Medieval.
No entanto, por se passar na Irlanda, como o país sempre foi muito avançado em termos do papel da mulher na sociedade e a Lei protegia a fundo a mulher – podiam divorciar-se dos maridos por vários motivos e tinham direito à propriedade –, era um cenário mais esclarecido e mais contemporâneo em termos de valores, para a época em questão.
Tenho de fazer um compromisso entre a exactidão histórica e o escrever algo que seja apropriado para as leitoras actuais, e talvez eu me incline mais para o segundo. Gosto que as minhas personagens femininas possam fazer escolhas.
Não fui ao ponto, como em muitos livros de Fantasia, de reproduzir o cenário da Europa Medieval com outro nome e ter mulheres guerreiras. Não fui tão longe, criei algumas limitações às minhas personagens femininas de acordo com esta sociedade, mas quero que elas sejam fortes.

- As suas personagens femininas têm personalidades muito fortes. Sente que tem de as usar para enviar uma mensagem às suas leitoras?
Acho que sim, que estou interessada em mostrar que as mulheres podem ser corajosas, que podem estar à altura dos desafios, viver boas vidas e ser influentes.
Algumas das minhas personagens femininas começam as histórias com muitas desvantagens, não tanto na série Sevenwaters mas certamente nas Crónicas de Bridei, sobretudo n’ O Poço das Sombras que com uma personagem que poderia perfeitamente ter desistido da sua vida e passar derrotada pelo mundo, e quis mostrar que mesmo quando as pessoas são confrontadas com situações terríveis podem erguer-se e viver uma boa vida ao encontrarem a coragem interior.
Portanto, sim, estou a mandar uma mensagem aos meus leitores.

- Sentiu-se sempre à vontade para escrever sobre sexo quando necessário. Também para quebrar tabus?
Depende… Não há muitas cenas de sexo nos meus livros comparados com os livros de outras pessoas.
Depende inteiramente da história e das personagens. Por vezes é adequado incluir uma cena de sexo, outras vezes não.
Outros escritores incluem muitas cenas de sexo e muito gráficas, eu não gosto disso em particular, pois dizer um pouco menos pode ser mais poderoso.
Há um local próprio para as cenas de sexo e eu uso-os quando é apropriado.

- As suas personagens são inspiradas por pessoas que conhece e por si própria? Que personagem te mais de si mesma?
Muito difícil responder. Provavelmente uma daquelas velhas mulheres sábias.
Não consigo pensar em nenhuma na saga Sevenwaters, apesar de haver uma contadora de histórias em Herdeiro de Sevenwaters chamada Willows, portanto talvez essa seja parte de mim. E também Frola, a mulher sábia, das Crónicas de Bridei, há muito de mim nela.

- Penso muito em si como Sorcha, por ser uma grande contadora de histórias também.
Haverá um pouco de mim em cada uma das personagens e um pouco das minhas duas filhas.

- Muitos dos seus livros falam da ideia de abnegação. É algo que procura conscientemente e para o qual está atenta no mundo actual?
Essa é uma pergunta difícil.
Acho que a abnegação é importante, mas ao mesmo tempo não quero que custe a alguém a sua vida ou a sua ideia de si mesma.
Certamente que n’A Filha da Floresta esse é o principal sentimento da personagem, porque no conto de fadas ela tem de abdicar de tudo pelos irmãos, eu não defenderia a abnegação por si mesma para praticar no dia a dia. Acho que temos de ter um balanço entre dar-nos aos outros e respeitar-nos a nós mesmos.
Odiaria pensar que alguém, no mundo real, seria chamado a fazer o que ela faz e abdicar de tanto de si.
Mas, mesmo assim, é uma qualidade admirável.

- Quando inicia um romance já tem a estrutura na cabeça ou vai criando-a à medida que escreve?
Tenho um plano em mente. Nem todos os escritores fazem isso. Há muitos autores que conheço que preferem sentar-se e deixar correr o livro de forma orgânica.
Eu sou uma planeadora, gosto de ter os contornos gerais do livro prontos. Faço a pesquisa e depois preparo os contornos gerais e depois começo a escrever.
Dito isto, muitas vezes altero o plano à medida que avanço, uma certa personagem pode tornar-se importante ou posso mudar algo na forma como a história funciona, mas nunca altero o final que planeio, sei sempre para onde vou.
Acho que o tipo de escritor que não planeia acaba por ter de reescrever muitas vezes, fazer muita edição, enquanto eu não reescrevo. Trabalho muito e revejo à medida que avanço e, quando está pronto, não tenho de fazer quase nenhuma revisão.

- Há algum “click” que a leva a dizer que o livro está acabado?
Como estou a trabalhar com um plano, vou da página 1 ao final e deveria estar pronto, mas não é tão claro assim.
É difícil dizer em que momento ocorre, mas chega uma altura em que estou satisfeita com o livro mas não posso dizer que esteja acabado até que o meu editor o leia e me dê uma série de notas.
Quando chegar a casa, na próxima sexta [Nota: A autora referia-se ao dia 8 de Julho], tenho o relatório editorial do primeiro livro de Shadowfell à minha espera. E tenho de o ler mal volte à Austrália.
Não estou muito desejosa dessa parte. (risos)

- Qual foi o momento mais gratificante que já teve, como escritora, por parte dos seus leitores?
Há duas coisas que gosto particularmente.
Uma é quando um leitor me diz que ler os meus livros os encorajou a ler mais. Tenho leitores que não apreciavam ler há muito tempo, leram um livro meu e adoraram e, a partir daí, passaram a ler muitos mais.
A outra é quando alguém descobre os meus livros e começam a escrever as suas próprias histórias.
Adoro ouvir isso por parte dos meus leitores.



Infelizmente, como a autora estava no final de um longuíssimo dia de entrevistas, e ainda a sentir os nefastos efeitos do jet lag, a entrevista não pode ser tão longa quanto eu desejaria (e preparara).
Claro que a disponibilidade foi enorme e as restantes perguntas seguiram por email para a autora.
Assim que as respostas chegarem até mim poderão ficar com uma óptima segunda parte de entrevista. Pode ainda demorar um pouco (como leram na entrevista, a autora está cheia de trabalho) mas tenho a certeza que valerá a pena a espera para saberem ainda um pouco mais sobre Juliet Marillier!


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

À conversa com Linda Gillard (parte 2)


- Como se sentiu quando, finalmente, viu o seu primeiro livro nas prateleiras das livrarias?
- Foi muito excitante – quase surreal – mas não foi nem de perto tão excitante como falar com os leitores que gostaram do meu livro e que quiseram trocar impressões sobre as minhas personagens – especialmente os meus heróis! Eles têm sido muito populares. As leitoras parecem adorar os meus heróis, o que eu acho interessante porque estes homens são imperfeitos e vulneráveis. Não são, de todo, típicos heróis românticos.

- Quanto dos seus livros é inspiração e quanto é trabalho árduo?
- Essa é difícil de responder. Talvez seja 50-50 comigo. De certo que não podia escrever um romance por encomenda, sem inspiração. As minhas intrigas são mais inspiração do que trabalho árduo. As ideias surgem-me de lado nenhum – quase como se os personagens me estivessem a dizer o que escrever. Mas também há muito trabalho envolvido. Um romance levará entre 1 e 2 anos e eu escrevo a tempo inteiro.

- Como é o ambiente no qual escreve?
- Actualmente eu tenho um grande estúdio com vista sobre o mar e sobre a montanha Goatfell. É muito belo. Partilho o estúdio com o meu marido que é um professor reformado. Ele tem um portátil e eu tenho o PC, mas muitas vezes escrevo com lápis numa folha pautada. Gosto de escrever os meus primeiros esboços à mão. Gosto do som do lápis a arranhar o papel e do acto físico de escrever (sou péssima a escrever no teclado).
O estúdio está cheio de livros, plantas, fotografias de família e posters de teatro e tenho um cadeirão muito confortável onde me sento para escrever ou rever o meu trabalho. É um quarto fantástico e tenho muita sorte em ter um local assim para trabalhar.

- Depois de três romance quais são os seus próximos projectos? Tem intenção de escrever noutros géneros ou quer continuar com que o está a fazer agora?
- Acabei mais dois romances e estou agora à procura de editores para eles. Um é bastante como Sonhar as Estrelas mas o outro é um pouco diferente – mais um mistério, mas ainda com uma história de amor. Vou continuar a escrever o mesmo género de livros e penso que vou continuar a situar algumas das minhas histórias na Escócia. O que me interessa são as pessoas, as famílias, as relações.

- Tem consciência a quantas línguas e a quantos países os seus livros já chegaram?
- Sonhar as Estrelas foi vendido para 6 países for a do Reino Unido e é fascinante ver todas as capas diferentes. (A capa portuguesa é a mais bonita até ao momento!) Os Laços que nos Unem, até agora, só foi vendido para Portugal.

- Lê as críticas aos seus livros? Como reage quando não são positivas?
- Leio as críticas e tenho tido sorte. Quase todas as críticas aos meus livros têm sido boas. De facto, muitas delas têm sido críticas entusiastas. Quando tenho uma crítica negativa sinto-me triste, por vezes aborrecida se o crítico não leu o livro em condições. Mas as críticas negativas já não me perturbam realmente. Houve muitas boas críticas e os meus livros ficaram nas listas finais de candidatos a diversos prémios. Sei que não se pode agradar a todos. Ler é demasiado pessoal.

- Há tantos autores a serem publicados hoje em dia… O que acha que a torna única? O que a faz chegar a mais leitores do que os seus colegas escritores?
- Não sei se serei “única”, mas sou certamente pouco usual no sentido em que as minhas heroínas são sempre mulheres maduras quarentonas. Por causa da sua idade estas mulheres já viveram vidas complexas e sabem o que querem da vida. Elas não estão obcecadas com namorados, malas ou vampiros! Eu escrevo sobre mulheres com um passado, com segredos, com grandes problemas a superar, por isso os meus temas são sérios – doença mental, cegueira, incesto, perda de fé, luto – mas escrevo sobre esses temas no contexto de uma história de grande paixão. Também incluo bastante humor. É-me dito que os meus livros não se conseguem interromper. Recebo algumas “queixas” de leitores que ficaram acordados a noite toda para acabarem um dos meus livros!
Suponho que se gostaram de ler Anita Shreve, Carol Shields ou Jodi Picoult, poderão gostar dos meus romances.
Como ocupa os seus tempos livres?
Leio, vejo filmes, passo tempo com a minha filha em Glasgow e faço colchas com remendos. E passo tempo demais no Facebook!

- E para completar esta entrevista, alguma mensagem para os seus leitores portugueses?
- Estou muito entusiasmada por saber que os leitores portugueses apreciaram os meus livros. Nunca estive em Portugal mas espero viajar aí um dia e conhecê-los. Também espero que quando lerem os meus livros queiram vir visitar as lindíssimas ilhas escocesas sobre as quais escrevo.
Também quero agradecer à Joana por me dar esta oportunidade para falar sobre os meus livros.


Assim concluí mais uma entrevista com uma autora cuja obra tenho gostado muito de acompanhar (em breve colocarei aqui a crítica a Sonhar as Estrelas).
Espero que tenham gostado da entrevista e se quiserem deixar o vosso feedback sobre o que gostaram mais e menos, sobre as perguntas que mais vos interessaram e sobre o que posso melhorar para o futuro, agradeço!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

À conversa com Linda Gillard (parte 1)

Depois de Linda Gillard ter deixado um comentário na crítica que fiz ao seu livro Os Laços que nos Unem, contactei-a para agradecer e para lhe perguntar como tinha conseguido perceber português.
A partir daí iniciámos uma troca de emails que terminou numa pequena entrevista da qual podem ler a primeira parte agora.
Amanhã terão o resto e, até ao final da semana, haverá uma surpresa.
Espero que gostem do que vão ler!


- Quando e como é que descobriu que queria ser escritora?
- Eu sempre escrevi e sempre adorei as palavras. Antes do email eu costumava escrever muitas cartas. Em criança fazia pequenos livros e bandas desenhadas! Eu treinei para actriz, mas também trabalhei como jornalista durante 12 anos, nessa altura tive os meus filhos e voltei a estudar para ser professora. Comecei a escrever ficção, apenas para ocupar o meu tempo, quando estava a recuperar de uma crise de nervos que me fez desistir de ensinar. Nunca pensei que a minha história (Os laços que nos unem) encontrasse alguém para ser editada. Escrevi-a apenas para mim mesma.

- De onde retira as ideias para os seus livros?
- Das pessoas, sempre. As personagens vêm primeiro. Maioritariamente uma heroína, mas por vezes é um protagonista. Não planeio muito os meus livros, apenas começo com uma pessoa ou par de pessoa e depois pergunto a mim mesma uma grande quantidade de questões. “Então e se…?”. Com Sonhar as Estrelas quis explorar a ideia de um herói imaginário (como uma criança tendo um amigo imaginário). Perguntei a mim mesma em que circunstências poderias não saber se um homem realmente existe? Ocorreu-me que se fosses cega, um homem seria apenas uma voz até lhe tocares e uma voz podia ser uma alucinação. Então decidi tornar a protagonista de Sonhar as Estrelas cega de forma a fazer o leitor interrogar-se se o herói não seria apenas imaginação da protagonista! Então turnou-se um livro em grande parte sobre a cegueira. Mas não foi assim que eu o iniciei.

- Muitas das suas histórias são sobre vidas trágicas. É uma forma de lidar com os seus próprios problemas?
- Eu penso que toda a escrita é, de uma certa forma, terapêutica. Claro que comecei a escrever de forma a lidar com os meus problemas. Estava a juntar os bocados da minha vida depois da minha crise e muito disso foi para Os Laços que nos Unem, mas nenhum dos meus livros é autobiográfico. Até agora escrevi 5 romances em 10 anos e descobri que escrever me ajudou a lidar com tempos difíceis, como a morte do meu pai. Os dois romances publicados em Portugal têm mensagens positivas e tento sempre escrever histórias que dêem esperança às pessoas, que as ajuda a continuar em frente.

- Durante grande parte da sua vida viveu em ilhas.De que forma essa vida e o cenário envolvente influenciou a sua escrita?
- Sou inglesa mas vivi na Escócia durante anos. Adoro as ilhas escocesas. Eu vivi na ilha de Skye durante 6 anos e eu também tinha uma casa na ilha de Harris. Agora vivo na ilha de Arran. Eu tentei a vida citadina em Glasgow durante um par de anos mas eu não conseguia habituar-me. Cheguei à conclusão que viver numa ilha é importante para mim. Preciso de estar perto do mar e preciso de paz e sossego – idealmente silêncio – de forma a escrever.
A paisagem é importante para mim e constitui uma parte importante dos meus livros. Sonhar com as Estrelas e Os Laços que nos Unem passam-se ambos em ilhas que conheço bem (Skye e North Uist) e a ilha ela própria é uma personagem da história.


- Quais são os seus escritores favoritos e em que aspectos é que eles mais influenciaram a sua escrita?
- A minha escritora favorita é Dorothy Dunnett, a autora escocesa de Ficção Histórica e penso que ela me influenciou um pouco. Também adoro Georgette Heyer. O seu uso do diálogo e humor impressionaram-me muito. Ela ensinou-me que um herói divertido pode ser sexy! Penso que também fui influenciada pelos livros de românticos de suspense de Mary Stewart. Eu descobri-os quando era uma adolescente nos anos 60 adorei-os desde logo. Os cenários são muito importantes nos livros dela. (Por vezes é uma ilha grega.) Estou certa que foi a Mary Stewart que me ensinou que um lugar pode ser outro “personagem” da história.
Antes de ser escritora foi actriz. Como é que a sua experiência no teatro a ajuda como escritora? Sente que tem maior ligação às personagens por ter sido actriz?
Sabias que muitas mulheres que escrevem ficção foram actrizes? Penso que se foste actor desenvolveste um bom ouvido para os diálogos. Sabes como as pessoas falam e sabes que as pessoas falam de maneiras diferentes. (Irrito-me com romances onde todos soam ao mesmo, independentemente da idade, género ou origem.) Como actor estás familiarizado com contar uma história através de diálogo. Eu penso que isto ajuda a escrever romances mais vivos que nos obrigam sempre a virar mais uma página. Penso que, de certa forma, escrevo as minhas personagens como papéis para actores. (Muitas vezes tenho actores específicos em mente quando estou a escrever.) Escrevo muitos diálogos e sinto que é muito fácil para mim fazê-lo.
Penso que tenho uma profunda conexão com os meus personagens – tanto os homens como as mulheres – e penso que, talvez, isso esteja relacionado com o meu passado na interpretação. Sinto que amo todas as minhas personagens, mesmo as menos simpáticas. É como se fossem meus amigos ou familiares. Representar ensinou-me a tentar compreender a motivação de um personagem, porque pode uma boa mulher fazer uma coisa má. Como actor não podes entrar em palco e apenas representar um “vilão”. Tens de compreender as motivações pelas quais alguém recorreu ao roubo ou ao assassinato. Penso que se um escritor tem esse tipo de entendimento e compaixão torna as personagens mais satisfatórias e complexas.
As pessoas não são a “preto e brando”. Há muitos tons de cinzento. E eu acho os cinzentos muito mais interessantes que os brancos e os pretos.

- Como licenciada em Psicologia interessou-me o facto de alguns dos seus personagens teres perturbações psicológicas. Pesquisa esses problemas ou conhece alguém nessas situações?
- Ambos. Fiz muita pesquisa e conheço pessoas (incluindo eu própria) que têm passados clínicos com perturbações mentais.

- E porque se interessa por esses temas?
- No Reino Unido and há um grande stigma associado com a doença mental. Fiquei chocada quando li num inquérito que 76% das pessoas questionadas disseram que não achavam que a doença mental fosse uma doença genuína! Quando fui diagnosticada com uma ligeira tendência bipolar senti dificuldade em obter informação sobre a doença. A maioria das pessoas não sabia nada sobre ela. A depressão também é um enorme problema mas as pessoas no Reino Unido – sobretudo homens – não sentem que possam falar sobre isso. Tentam escondê-lo, o que, claro, só piora a condição.
Escrevi sobre problemas psicológicos (e sobre cuidar de pessoas com estes problemas) e sei que os meus livros já ajudaram pessoas. Tenho tido leitores que me abordam em eventos e me dizem “Não fazia ideia até ler Os laços que nos unem que o que se passava de errado com a minha mãe/marido/irmã era uma desordem bipolar”. Uma mulher, cujo marido bipolar tinha cometido suicídio, disse-me “Agora quando quero que alguém saiba como é viver com a doença bipolar, dou-lhes o seu livro”. Uma adolescente escreveu-me para me dizer que após ler Os laços que nos unem tinha conseguido parar de se auto-mutilar (cortar-se) e tinha começado a escrever poesia.


- De todos os seus personagens, com qual se identifica mais?
- Estranhamente, identifico-me mais com os meus heróis do que com as minhas heroínas! Suponho que o personagem com quem me identifico mais é Calum, o professor de Os laços que nos unem. O modo como ele ensina é o modo como eu ensinava. Ele é o tipo de professor que eu era e ele fugiu da cidade para uma ilha, como eu.