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terça-feira, 2 de junho de 2015

A Rapariga no Comboio (Paula Hawkins)

Creio que no cerne d'A Rapariga no Comboio está a forma como as pessoas se apegam a uma ideia própria das vidas alheias e como isso se reflecte na delas próprias.
Se pensarmos nas três mulheres que dão voz a esta narrativa, cada uma delas parece ter-se colocado em problemas por encarar outras vidas como o melhor modelo para as delas.
Rachel vê um casal pela janela do comboio e faz deles imensamente feliz, de tal maneira que não evita intrometer-se com a investigação quando a mulher desaparece.
Essa mulher é Megan, que tendo uma segunda oportunidade do que fora um enorme erro de juventude e vendo a aparente felicidade do casal de quem foi ama, tenta uma via de escape para ser mãe.
Anna era a mãe da criança de quem Megan tomou conta e a actual mulher do ex-marido de Rachel que, comparando-se com esta última que entretanto engordou e é alcoólica, só vê coisas a seu favor e torna-se crente na vida familiar que tem.
As histórias destas muitos estão muito enredadas entre si e sabemos que tal só pode piorar. Até porque o ser humano é atraído para o caos pela curiosidade mórbida e acaba por tomar acções que precipitam as complicações.
Poderia quase dizer-se que se trata de um problema feminino, esta tendência para serem metediças, mas isso é porque os homens são personagens secundárias do livro, embora antagonistas principais.
A defesa do lado feminino é até algo de complexo no livro, ainda que as três mulheres tenham muitas imperfeições.
Se olharmos para elas como um tríptico temporal, veremos que são fases diferentes do drama das mulheres em torno de se tornarem mães.
Uma que não consegue engravidar e se afunda por completo, outra que sendo mãe começa a sentir depressão e se tenta convencer que o seu papel como mulher agora é aquele e uma última que tendo falhado como mãe uma vez procura
São essas situações que criam as primeiras cisões com os homens das suas vidas (não posso ser mais específica aqui para não criar um spoiler) e as encaminham como mulheres para comportamentos que pensavam estar reservadas às "outras" e piores do que elas.
Serem amantes, serem vingativas, serem mentirosas, serem fáceis e, no limite, serem alcoólicas.
As emoções do livro são, mais do que desvendar um desaparecimento, perceber até que ponto algumas destas mulheres conseguirão recuperar as suas vidas dignas.
Em torno de medos que são palpáveis e até credíveis, a autora criou personagens frágeis mas a reivindicarem toda a nossa atenção porque se a guerra tem a ver com o desaparecimento de uma delas, as batalhas são totalmente pessoais e é essas que queremos acompanhar.
Não sendo um livros com a qualidade que os 2 milhões de exemplares vendidos em 3 meses prometia, é um livro que se lê com prazer e que tem algumas ideias originais numa continuação desta imagem de emancipação das personagens femininas em ambientes hostis - o thriller em geral, nas quais são mais vítimas do que outro papel.





Autor: Paula Hawkins


Editora: Topseller


Páginas: 320


Género: Thriller

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

À Cabeceira do Rei (Paulo Drumond Braga)

Este é um livro muito chamativo para os amantes da nossa História. Creio que poderá ser ainda mais chamativo para os que não se sentem atraídos pelo tema.
Este tratamento do foro privado dos nossos soberanos pode muito bem ser a porta de entrada mais apelativa para se olhar para os Reis como pessoas a par de nós próprios.
Não se trata de chamar a atenção pela sua intimidade amorosa, que pode servir para romancear o Passado mas não nos esclarece devidamente.
Trata-se do historiador Paulo Drumond Braga nos falar da fragilidade que os Reis partilham connosco, assim os mostrando humanos.
As suas doenças e, em alguns casos, as suas mortes mostram que a fragilidade humana não tem em conta o posto que cada qual ocupa e que os médicos, por melhores intenções que tenham, não podem ir mais além do que iriam com um simples camponês.
Ou, se o tentam ir, estão já no campo da invenção que lhes permita parecerem sábios quando o paciente frágil à sua frente tem, sempre, o poder sobre eles.
Algumas das doenças de então ficam esclarecidas aos nossos olhos modernos, mas isso não acontece com todas as sequências que levam à morte de reis.
Há casos nos quais as suspeitas permanecem e também isso é excitante, uma espécie de policial arqueológico em que a intuição e a extrapolação são as melhores armas... mesmo que apenas da nossa imaginação.
Ao mesmo tempo temos direito a uma outra lição, de Medicina. A evolução do conhecimento fica bem patente na explicação dos métodos usados ao longo dos séculos.
Pode ser difícil, por vezes, compreender à luz da nossa Era os pontos mais avançado da Ciência de então sem os classificarmos como "crença" mas é essencial tentar perceber as limitações - científicas e religiosas, por exemplo - que faziam a Medicina progredir tão lentamente.
Para o leitor é também importante saber que o autor conseguiu escrever de forma chamativa sem deixar de lado a precisão científica do seu mester.
A introdução de cada capítulo é importante para relembrar o contexto do que vamos ler, o recurso a citações das obras de referência bibliográfica dão a cada relato uma maior proximidade ao tempo em que se passaram e, sobretudo, uma intromissão no círculo mais restrito dos monarca.
Este género de trabalhos permitem ao comum leitor, com ligeireza, passar a História por "tu", algo que o historiador que o escreveu já faz mas com o peso da sua vocação.





Autor: Paulo Drumond Braga


Editora: Esfera dos Livros


Páginas: 328


Género: História / Divulgação

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

As Gémeas (Saskia Sarginson)

Duas irmãs gémeas encontram-se agora em pontos completamente opostos da sua existência, como pessoas no mundo actual, mas mesmo como mulheres.
Uma delas escreve com sucesso para uma revista de moda e é um símbolo de glamour. A outra continua a lutar com a sua anorexia, problema que muito afecta 
Como é que duas raparigas cheias de vida e beleza, muito unidas, cresceram para serem estas duas mulheres em busca de uma identidade exterior
Obviamente que há um segredo no seu passado que as afectou de maneiras de diferentes e que conseguiu afastá-las.
Esse passado é absolutamente fascinante, um relato acerca de duas gémeas vivendo na orla de uma imensa floresta, cenário que sugere um misto de conto de fadas e conto de terror.
A identidade das irmãs enquanto crianças também é excepcionalmente criada, sendo personagens com traços bem distintos entre si mas cuja forte ligação emocional é sempre ricamente explorada.
Criar personalidades de crianças é um trabalho difícil mas Saskia Sarginson conseguiu dar-lhes características ricas e desafiantes sem as transformar em adultas em miniatura.
Acredita-se que são crianças que, em parte, estão para lá da sua idade, o que tem toda a razão de ser perante os desafios que enfrentam e a independência que vão criando para si próprias por serem criadas apenas pela mãe, bastante liberal e para lá das normas sociais!
Creio que é a experiência da autora que ajuda a que este seu trabalho acerca da infância resulte tão bem. Afinal ela é mãe de gémeas e a sua própria infância foi vivida numa zona rural de Suffolk.
Este conhecimento na primeira pessoa leva-a a ter um imenso sucesso na captura da relação emocional do leitor com estas personagens enquantos jovens a braços com mudanças significativas no seu lar quando a mãe vai recasar, ao mesmo tempo que descobrem uma certa magia local ao conhecerem dois irmãs gémeos de quem se vão tornando amigas.
O mesmo não acontece com as versãos adultas das irmãs, demasiado limitadas a traços de carácter quase meramente funcionais a um nível emocional.
A luta entre a vida e a morte de Viola tenta obrigar o leitor a sentir uma triste ansiedade. O retorno de Isolte ao local da sua infância para lhe desvendar os segredos tenta obrigar o leitor a sentir solidariedade pela sua abnegação.
Por isso as personagens são mais fortes em 1972 do que depois em 1987, muito embora estejamos a conhecê-las nessa altura por via das memórias da própria Viola.
Merece mesmo reparo o facto da narrativa variar muitas vezes o ponto de vista do qual parte, o que implica variações temporais, variações do tempo verbal e variações na pessoa gramatical.
A variação em si, apesar de um pouco excessiva, não seria um problema se fosse sempre óbvia, mas muitas vezes a mudança do período de tempo é brusca e pouco perceptível visto que acontece apenas no interior da memória de Viola, pelo que a voz narrativa é exactamente a mesma.
Este é o ponto negativo de estarmos perante um primeiro romance, a falta de calo da autora para dominar a estruturação da história usando as múltiplas vozes que decidiu usar. O risco disto é que pode afastar muitos leitores logo ao fim de alguns capítulos.




Autor: Saskia Sarginson


Editora: Chá das Cinco


Páginas: 288


Género: Romance

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um Caso Perdido (Colleen Hoover)

Um Caso Perdido parece-se, durante mais de metade da sua duração, com mais um romance principalmente dirigido a um público adolescente.
Talvez até seja, na sua totalidade, um livro apontado a esse público adolescente. Mas o seu conteúdo exige um acompanhamento emocional para esse público, pois é capaz de chocar até os leitores adultos.
Esta história de Amor entre Sky e Holder acontece num contexto interessante em que são ambos desajustados que estiveram afastados do contacto social normal e que se atraiem.
As reputações de ambos são do pior que podem ser, embora não sem o seu quê de exagero, e as dúvidas de um perante o outro colocam-se, ainda que o desejo imenso (o Amor define-se mais tarde no livro) impeça que reflictam sobre a sua situação juntos.
A atracção de Holder por Sky tem algo de obsessivo e pouco saudável, tal como o distanciamento emocional dela tem muito de trauma silenciado, como se confirma quando o Passado conjunto de ambos se revela.
Não é difícil adiinhar o quanto estes dois vão viver intensamente em conjunto, tal como não é difícil adivinhar qual é o grande segredo que paira sobre a vida deles.
Mesmo assim o leitor não consegue deixar de ser guiado pelo uso que a história vai fazendo das emoções mais extremadas e que contagiam com facilidade e intensidade.
Este é um livro que se impõe, precisamente, pelas emoções que transmite, em doses iguais e gigantes de encanto e horror perante o que os seres humanos são capazes de fazer.
Só que essa manipulação tem um limite de aceitação e acaba por levantar dúvidas importantes acerca daquilo que a autora fez com os temas que escolheu.
O seu uso do abuso sexual de menores como reviravolta, primeiro, e tópico de união reforçada entre o casal de adolescentes, depois, tem muitos momentos duvidosos. E isso talvez seja dizer o mínimo.
Falta ao livro um aspecto didáctico acerca de como procurar ajudar alguém que sofreu um trauma tão grande.
Não era necessário que a autora abdicasse da ficção ou do romance entre as personagens para o fazer, bastaria que não escrevesse como se o Amor fosse o suficiente para resolver qualquer problema sem auxílio de formas de terapia ou acompanhamento psicológico.
Até mais do que o amor, a autora faz do próprio sexo uma ferramenta sem grande apego emocional que permite usá-lo como paliativo.
A meio do desespero que Sky sente ao recuperar as suas memórias traumáticas, ela decide que tem de fazer sexo com Holder naquilo que vai ser a sua primeira vez. Depois do pai se ter matado à sua frente e ela ter lavado pedaços do cérebro dele do cabelo ela decide que tem de fazer sexo com Holder.
O sexo como substituto da raiva no primeiro caso. O sexo como substituto do horror, no segundo caso.
Se a ideia era que a personagem feminina tomasse as rédeas da sua sexualidade depois de ter sido privada dela, então não funciona.
Emocionalmente a personagem nunca se mostra preparada para compreender o acto sexual, muito menos para o consumar.
A solução narrativa de que o sexo resolve tudo, versão moderna de "o amor pode tudo", é uma grave limitação da autora.
Como escritora e, talvez ainda mais importante do que isso, como antiga assistente social, não me parece que Colleen Hoover queira validar que a recuperação traumática acontece quase num passe de magia e quase sem esforço. Muito menos tornando o sexo nesse passo de magia.
Simplificação grosseira apenas para que o romance entre os dois protagonistas siga adiante e, mais grave do que isso, um total irrealismo que não faz sentido quando a segunda metade do livro explora em realismo gráfico explícito o sexo, seja "bom" ou "mau".
Não quero com isto dizer que Colleen Hoover não seja uma escritora com muitos talentos, talvez o mais interessante o de conseguir dar às palavras românticas força poética com credibilidade, mas aqui falhou de forma tremenda ao ir demasiado longe no tratamento dos abusos infantis sem deixar de estar a escrever o tal romance onde o amor é bem sucedido contra tudo e contra todos.




Autor: Colleen Hoover


Editora: Topseller


Páginas: 352


Género: Romance

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Viagem ao Fim do Coração (Ana Casaca)

Este é um livro que orbita em torno da doença que é o cancro e, no entanto, é difícil dizer que é um livro sobre esse tema.
A sua frontalidade - que por vezes parece conter um toque de brutalidade apenas porque os tópicos assim o ditam - trata tanto dos temas que nos despertam as melhores emoções como dos que nos despertam as piores.
Cancro, violência, dedicação, sacrifício, superprotecção e Amor (assim mesmo, com letra maiúscula e em todas as suas formas).
Costuma dizer-se que há livros que são uma montanha-russa de emoções e este é um deles, certamente, um resumo de tudo o que a vida contém em capítulos muito intensos.
Capítulos que vão passando de voz em voz entre Luísa, Pedro e Tiago.
Luísa é a grande sofredora deste livro. Pedro o seu irmão e Tiago o seu companheiro e ambos lhe vão demonstrar que ela é também uma afortunada, em certa medida.
São importantes as mudanças de perspectiva para compreender como se reage a tão intensa doença sofrendo dela ou acompanhando quem dela sofre.
A compreensão do difícil que é conciliar todas aquelas visões do momento que se está a viver é importante para perceber como as pessoas podem sucumbir à pressão da realidade, mas ainda mais importante para perceber o quanto as personagens do livro, sobretudo Pedro, são capazes de descobrir e dar de si em favor dos outros.
As três personagens tornam-se muito vívidas e interligadas na nossa mente ao longo dos capítulos, mas há também uma sugestão de que Tiago está sempre ligeiramente de fora em relação à intimidade maior dos dois irmãos.
Isso é sugerido em grande parte pelo seu ser o único testemunho que não é feito na primeira pessoa e faz sentido na história porque o seu percurso de infância é precisamente o oposto da de Luísa e Pedro, embora os resultados práticos se aproximem: os três acabaram por ter de arrancar as suas próprias personalidades das prisões em que os seus progenitores os colocaram.
Tiago conquista o seu lugar no espaço das relações dos dois irmãos por tudo o que faz, para além de pelo próprio Amor que sente e faz sentir.
Mas está de certa forma sempre a olhar de fora para dentro, no que torna ainda mais complexo o retrato que Ana Casaca criou num trio de relações que costuma ser muito propício para a ficção.
Como esse triângulo surge depois da autora ter relatado as infâncias dos três, a verdade é que as relações são mais credíveis à conta de composições que vêm dos momentos mais marcantes da vida, as grandes impressões que vêm desde a infância e das escolhas precoces que as crianças têm de tomar.
Luísa é, em todos os aspectos mas nesse ainda mais intensamente, marcante pelo que fez pelo irmão mais do que por ela própria.
Podem ser os pequenos momentos, como o encontro na praia que lhe revelou o amor, que deixam uma lembrança agradável sobre a vida, mas são as decisões temerárias que definem rumos.
E o rumo dela traça depois o rumo deles. A decisão que ela outrora tomou leva-os a todos à maneira como enfrentam o cancro que é apenas uma mais adversidade e nunca altera o que eles são ou querem ser.
Estas personagens crescem e superam-se perante nós e conquistam-nos. Visto que a história é baseada em relatos reais, espero que as verdadeiras pessoas por detrás da ficção sejam igualmente marcantes para quem as conhece e, sobretudo, que recebam muito mais da Vida!





Autor: Ana Casaca


Editora: Guerra & Paz


Páginas: 328


Género: Romance

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Segredo dos Tudor (C. W. Gortner)

Em O Segredo dos Tudor somos levados a encarar a famosa corte Inglesa pela perspectiva de Brendan Prescott, um personagem que fala de si mesmo como sendo tão banal que seria tão pouco notado como a chuva.
E, no entanto, é um personagem capaz de nos fascinar e para quem essa falta de atributos distintivos será muito útil.
Afinal a sua história será uma de verdadeira espionagem, numa altura em que as maquinações em torno de tal actividade pareciam começar a ganhar forma com novos conceitos e estratagemas.
O melhor é que a sua deambulação pela Corte, com fidelidades sempre em mudança consoante a força de quem tivesse o poder, servem os intentos de quem à época procurava definir (ainda) a sucessão de Henrique VIII, mas também servem os intentos do próprio Brendan.
Ele luta ao mesmo tempo pela descoberta do seu próprio mistério, um que vem desde a sua infância e que já lhe custou muitas dores.
Isto permite a Gortner ligar a ficção e a História de forma quase indestrinçável, tendo a liberdade de usar o ficcional Brendan como ponto de união entre diversas personagens reais.
Mais ainda faz com que o livro seja muito mais um livro de espionagem cheio de reviravoltas inesperadas e mistérios continuadamente em suspenso. Isto ao invés de ser mais um relato de um período histórico que conhecemos muito bem.
Todos os interessados sabem já como o poder foi mudando de mãos entre os filhos de Henrique VIII, pelo que o autor ao evitar recontar tudo isso mas usando-o como um vivo cenário de onde retira saborosos detalhes que afectam as suas criações consegue fazer-nos acreditar que esta história poderia ter acontecido discretamente pelo meio de outras intrigas mais ferozes e lembradas.
Até porque a perspectiva de Brendan Prescott sobre a corte é "fresca", de um recém chegado alheado de quase tudo. Mas vai evoluíndo de tal forma que ele quase se confunde com quem nela se sentava há anos.
A personagem ganha volume e torna-se muito credível e vai conquistando e reconquistando o leitor também porque acaba por proporcionar novas perspectivas sobre algumas figuras já muito trabalhadas por muitos outros romances históricos - dos quais este se distingue de forma muito clara, diga-se!
O autor trabalha todos estes elementos com uma escrita que vive da formalidade prática. Ao mesmo tempo que sugere uma aproximação ao estilo linguístico do século XVI mantém uma vivacidade moderna. Nessa combinação consegue captar a atenção do leitor e, mais do que isso, o seu devoto prazer.
Uma linguagem perfeita para estar ao serviço de um livro onde o suspense e a acção intensa se equilibram para proporcionar uma "montanha-russa emocional" que é tudo o que se quer de um livro do género.
A combinação é excelente e merece a leitura de todos, mais ou menos afoitos para o Romance Histórico. Cá esperamos os próximos volumes!




Autor: C. W. Gortner


Editora: Topseller


Páginas: 352


Género: Romance Histórico / Mistério

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Em Segredo (Catherine McKenzie)

Este é um livro que bipolarizou a minha opinião, levando-a em igual medida a extremos de prazer e desconforto.
Trata-se de um livro muito bem escrito, capaz de transmitir com enorme força a angústia e a tristeza que assolam as pessoas quando estas guardam segredos para com quem elas partilham a vida.
A autora consegue mesmo criar situações de vida credíveis e complexas por estarem cheias de razões que justificam o abatimento e a indiferença em que vivem as personagens.
Isso mesmo impede que se sinta que as personagens são apenas "boas" ou "más" consoante o lado em que estão da traição, que é afinal o tema central do livro.
Todas as personagens têm uma composição que está muito para lá do esterótipo, sobretudo as duas mulheres que não são apenas "a esposa" e "a amante".
Elas são, primeiro que tudo, mulheres com carreiras e família, que acabaram por amar o mesmo homem.
A partir daí a autora consegue facilmente manter o leitor em suspenso e desejoso de saber o que acontece com as duas mulheres que sobram do trio de personagens.
Mas como trio que é, o livro acaba por ser narrado de três pontos de vistas distintos, o de Jeff, o de Claire e o de Tish.
O problema é que Jeff está morto desde o início do livro e a sua presença como narrador perfeitamente equiparado aos restantes retira muita da verosimilhança que o livro vem tendo.
Enquanto se vai lendo o livro como um retrato muito incisivo sobre o casamento e, ao mesmo tempo, sobre o que está em falta na vida das pessoas, está-se também a ler um livro que não explica porque está um homem morto a contar a sua história.
Era importante ter Jeff a falar da relação com as duas mulheres como complemento ao que estas sabem mas, também, como voz masculina em oposição às de Claire e Tish.
Só que a utilidade disso não convence o leitor de que, então, a melhor opção era matá-lo ao fim de poucas páginas.
Outras tragédias, não fatais, poderiam ter resultado no mesmo grau de tristeza das duas mulheres, talvez até com um confronto mais directo entre ambas.
De certa maneira essa opção pelo uso de Jeff acaba por também levar a que a história não pareça tão sólida quanto se esperava.
Por vezes os motivos para a história seguir adiante são ténues e até um pouco forçados, sendo o melhor do livro mesmo os momentos dedicados às revelações das personagens, num desenvolvimento de si mesmas que nos move adiante com elas.
Quando o leitor se consegue render ao livro, este revela o turbilhão de sentimentos que contem, mas para que este se consiga render é necessário lutar com alguma força contra a dúvida que o narrador Jeff suscita.
A opinião dividida acerca do livro vem desta impossibilidade de, ao ler o livro, separar a emoção que as suas palavras transmitem da emoção que a sua estrutura causa.





Autor: Catherine McKenzie


Editora: TopSeller


Páginas: 304


Género: Romance

domingo, 14 de setembro de 2014

Na Pele de Meryl Streep (Mia March)

As irmãs Isabel e June e a prima de ambas, Kat, juntam-se na pousada da mãe de Kat, Lolly e encontram um inesperado tempo de união na projecção de filmes de Meryl Streep.
São mulheres a braços com problemas que lhes parecem impossíveis de resolver e que a levam a encontrar lições de vida em filmes como Kramer contra Kramer ou As Pontes de Madison County.
Todos os que já viram filmes - bons filmes, diria - já sentiram que alguma cena e algum diálogo em particular falava directamente à sua própria vida.
Estas três mulheres, fruto das dificuldades imensas que têm na sua vida privada agarram-se por completo às várias personagens de Meryl Streep para tentarem reconquistar a sua força "feminina".
Na verdade é uma ideia que consegue ser mais plausível do que possa parecer, pois à falta de um tipo de apoio profissional ou especializado, estas mulheres socorrem-se da figura mais forte que está disponível nesse momento.
Não se trata apenas de recorrer a Meryl Streep, trata-se ainda de se reaproximarem enquanto família apesar de em novas não terem sido tão íntimas quanto seria lógico que acontecesse ao serem criadas juntas e tendo perdido os pais.
Se à volta destas mulheres todos parecem incapazes de compreender os seus dramas, a quem podem elas recorrer senão à sua própria família? Mesmo se a relação com esta nunca lhes pareceu a melhor!
Assim vai decorrendo a história, com estas personagens a criarem laços ao mesmo tempo que se descobrem a si mesmas, o que as ajuda a superar os preconceitos que tinham umas com as outras.
Os filmes de Meryl Streep que elas vão vendo não reflectem apenas os dramas das personagens, dão respostas possíveis 
Uma das grandes conquistas de Mia March foi ter conseguido evitar que parecesse que cada uma das mulheres do livro era uma imitação das personagens dos filmes escolhidos.
Meryl Streep através dos seus filmes é quase uma quinta personagem do grupo, com a autora a explorar os filmes de forma muito rica e muito intensa.
Sobretudo porque guarda um mistério acerca de Lolly e África Minha, filme que se recusa a ver de novo, que vai levar a que a reconquista destas mulheres da sua própria vida não seja tão simples como parece ir acontecer ainda a meio do livro.
Pois se o final tem muito de "certinho", certamente feliz creio eu, também é um final forte e credível, o final indicado para o que este livro nos mostrou ao longo das suas páginas.
Acima de tudo, é um final que se gosta de ver acontecer a um conjunto de personagens que Mia March tornou quase reais, fruto de uma narração que vai mudando de voz entre Isabel, June e Kat e que permite que certos momentos se reflictam a partir de vários pontos de vista e, sobretudo, de várias consciências diferentes que levantam mais hipóteses sobre uma personagem do que se fosse ela própria, somente, a reagir.






Autor: Mia March


Editora: Bertrand Editora


Páginas: 344


Género: Romance

domingo, 7 de setembro de 2014

Envolvidos (Emma Chase)

Entre os romances eróticos que já tive oportunidade de ler ou de me recusar a fazê-lo, parece-me que Envolvidos pode estar entre os melhores.
A principal causa para isso é a forma como a autora entra no cérebro masculino de Drew, um homem cheio de charme, e utiliza detalhes da sua personalidade que o mostram para além do mero
Por exemplo, a sua relação com a família, pormenores que deixam ver que ele não será uma personagem merecedora de uma total censura da parte dos leitores.
Mas, sobretudo, é pelo humor dele que Emma Chase nos conquista por completo e nos faz acreditar no ponto de vista masculino que criou.
Outra causa quase tão importante é o par feminino de Drew, Kate, que não se rende até que ele comece a transformar a forma como usa os seus "poderes masculinos".
O facto dela ser uma mulher forte e decidida - e um pouco teimosa, é verdade - que prefere manter a sua indepência a criar desculpas para o comportamento de Drew é particularmente importante para equilibrar a tão famosa "guerra dos sexos" até que ela termine entre os lençóis.
Com estes dois personagens frente a frente perante tantos erros e tantos desacertos, o que Emma Chase consegue é levar a que Drew evolua e se vá tornando um pouco mais submisso sem deixar de ser ele mesmo.
Uma certa arrogância deliciosamente bem-humorada nunca desaparece mesmo se ele se rende - à paixão, entenda-se - e se torna numa melhor pessoa do que era quando a sua única fidelidade ia para os casos amorosos de uma noite só.
Emma Chase acabou por criar um romance erótico bastante forte do ponto de vista das mulheres, mesmo pela voz de um homem tão machista (a princípio).
Basta reparar nas lições que Drew dá à sua sobrinha, ditas com uma certa falta de sensibilidade masculina mas com toda a perspicácia de quem não a quer transformada numa das mulheres que lhe passaram pelas mãos.
A maneira como ele e a sobrinha falam sobre a Cinderela é algo que nunca me tinha ocorrido e são a causa de alguns dos risos mais fortes que este livro consegue proporcionar.
O que calha muito bem para compensar aquela dose de "lamechice" que é quase inerente à parte romanceada do "rapaz que conhece a rapariga mas que sofre por não a poder ter até que finalmente consegue ficar com ela".
E quando se combina o humor e o sexo, então, a coisa atinge mesmo proporções épicas de excitação (cuidado com as interpretações!) cómica.
Ora vejam lá este exemplo mesmo a fechar o livro, quando o casal já está entre os lençóis e ela exclama:

- Meus Deus! Oh, meu Deus!
Sorrio e acelero o ritmo.
- Não é Deus que te está a foder, querida.
Claro que estou apaixonado, mas ainda sou eu.
- Drew... Drew... isso... Drew!
Assim está melhor.






Autor: Emma Chase


Editora: TopSeller


Páginas: 256


Género: Romance Erótico

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A Amante do Papa (Jeanne Kalogridis)

Um dos aspectos que mais rapidamente me captou a atenção foi o facto da sua narrativa ter como ponto de vista a aia de Catarina Sforza sem que ela sirva apenas como receptora dos desabafos da sua dama.
Tendo a sua própria história, o mistério da morte do seu marido que ela tentará resolver, Dea acaba por ser mais do que uma voz, é uma personagem condutora da narrativa e de muitas desobertas acerca da sua época.
Várias dessas descobertas do submundo do mundo por onde se move Catarina Sforza, mas acontecendo sempre em paralelo entre as duas mulheres.
Ambas têm aspectos de vida similares - o assassínio dos maridos de ambas, por exemplo - mas a autora reforça isso com o padrão de leitura das Cartas da Sorte que é coincidente entre as duas.
Assim ligadas, Dea será mais do que testemunha da vida de Catarina, contribuirá para as suas tomadas de decisão.
Admirando-a profundamente e querendo protegê-la, Dea usará ao máximo as suas capacidades, até vendo-as colocarem-se em confronto com a sua herança católica.
A autora tomou muitas liberdades históricas, em grande parte com o forte pendor místico que rege as duas mulheres protagonistas do livro e com a magia na mão de alguns elementos à sua volta.
Reconhecendo e aceitando essas liberdades ficcionais o que encontramos para além disso é uma descrição muito vívida da realidade do século XV Italiano.
Uma descrição sem medo da sua crueldade e dureza, usando-a muitas vezes como demonstração dos males, maioritariamente masculinos, que Catarina Sforza teve de enfrentar e que a levaram a moldar a sua personalidade de política e estratega ao nível feroz como o fez.
Nesse cenário ela insere um enorme conjunto de personagens intensas. Nem todas serão admiradas, nem naquele período da Renascença tal seria possível, mas nenhuma ficará esquecida pelo leitor.
Do jogo sangrento da política entre Sforza, Médici e Bórgia só pode resultar um envolvimento de leitura intensa.
Os estratagemas políticos que eram, afinal, parte subjacente a todas as decisões de vida de Catarina Sforza são o que nos convence de que estamos a ler uma história no coração da História.
Mesmo se, desta vez, há mais lugar à invenção do que o habitual.





Autor: Jeanne Kalogridis


Editora: Planeta Manuscrito


Páginas: 464


Género: Romance Histórico

domingo, 3 de agosto de 2014

O Bibliotecário (A.M. Dean)

Para mim um dos pontos mais interessantes d'O Bibliotecário é o facto de ser protagonizado por uma mulher.
Uma mulher jovem e atraente mas com uma carreira académica. Certamente que são raras as protagonistas neste género de conspiração que envolve muita aventura masculinizada.
Aqui também é o cérebro que prevalece, já que história exige mais da memória e da inteligência da protagonista do que das suas capacidades físicas.
Essa opção também ajuda a equilibrar um pouco a forma como o livro - e, em geral, todos os thrillers deste género - vai criando algumas situações impossíveis.
Essas situações é que levam os protagonistas à volta do mundo a conhecer e a dar a conhecer ao leitor locais extraordinários.
Nesse aspecto, as descrições dos vários lugares por onde passa a acção, sobretudo a moderna Bibioteca de Alexandria, são muito fortes, conpletas e vívidas.
Ainda mais fortes são os relatos históricos dos acontecimentos que afectaram a biblioteca original, dos relatos que se relacionam com os livros que dela desapareceram para depois serem avistados.
Esses são, sem sombra de dúvida, os pedaços mais excitantes deste livro, pois a História tem maravilhas que a imaginação não consegue atingir.
A inclusão da História na história enriquece-a e acaba por servir como segunda linha do livro que, além de uma aventura entretida, reflecte sobre o poder que os livros guardam e de como se pode confiar em quem controla o seu conhecimento.
Trazendo a Biblioteca de Alexandria das suas origens antigas à realidade de um mundo digital, o autor dá-nos um livro que deixa uma marca para além da leitura mais superficial.
E num reparo final, é um livro cheio de informação mas nem por isso demasiado longo ou com um ritmo lento. Será, por isso, capaz de satisfazer muitos públicos diferentes de maneira igual.




Autor: A.M. Dean


Editora: Clube do Autor


Páginas: 404


Género: Thriller

domingo, 27 de julho de 2014

Sou um Clandestino (Susanna Tamaro)

Uma narrativa breve guiada pelos passos de um homem ainda jovem que, solitário, se procura a si mesmo procurando as origens da sua família.
O que ele espera é que o Passado responda aos seus problemas actuais, os traumas da infância a virem a apontar uma nova luz aos problemas existenciais.
Ele é um homem vivendo em aparente normalidade mas com um constante sentimento de inadaptação.
Talvez seja em parte um eterno descontente, mas as tragédias do seu Passado, como a irmã que morreu atropelada, e os percalços do seu Presente, como uma namorada que exige demais dele sem lhe dar em igual medida, tornam-no propenso a uma existência dolorida.
São as marcas que lhe ficam na psique que o encaminham para a inevitabilidade da insatisfação actual.
O percurso que ele faz é uma fuga. Se é verdade que ele vai dos seus problemas actuais para ir confrontar os problemas da sua infância, enquanto está em viagem - quase sem bagagem - ele está a afastar-se desse amor que lhe faz tão mal.
O texto reflecte intensamente sobre os males que afectam o ser humano, tentando com isso fazer igualmente uma parábola da Europa que o protagonista percorre.
Os males que aconteceram antes e os males que estão para vir, tudo num texto que procura uma alcançar uma certa poesia enquanto explora a "filosofia do homem comum".
Este é o primeiro livro da autora, por publicar há décadas, e ainda tem as marcas desse primeiro esforço que merecia ter sido retrabalhado para agora ser publicado.
Isso nota-se, sobretudo, na imperfeita articulação com o resto do texto dos capítulos em analepse que quebram o fluxo da narrativa.
Até porque, analisando bem, eles apenas revelam um passado que já íamos conhecendo através das reflexões do próprio viajante.
Pelo contrário, não ter sido retrabalhado permite que o texto guarde uma força em bruto que tem tudo para surpreender os leitores, para os capturar na leitura.
Há também uma certa beleza nessa forma de escrever de forma desabrida, colocando a autora um pouco mais de si do que é habitual no texto.
Uma leitura com méritos e que apelará sobretudo aos maiores fãs da autora que queiram compreender o seu percurso desde o início.




Autor: Susanna Tamaro


Editora: Editorial Presença


Páginas: 280



Género: Romance

segunda-feira, 17 de março de 2014

Inferno no Vaticano (Flávio Capuleto)

Inferno no Vaticano vai ficar nas prateleiras das livrarias ao lado dos livros de Dan Brown e dos vários outros autores que utilizam o mesmo estilo e exploram as mesmas temáticas com potencial polémico.
Mas não me parece que se comparem, pois na verdade Flávio Capuleto está menos interessado em explorar temas quentes e mais interessado em reflectir.
Basta dar atenção a como este livro investe mais nos diálogos, que são discussões com muitos argumentos e sempre escritas de forma muito cuidada, do quenas cenas de acção e investigação.
Isso mostra a diferença que este livro tem para os outros que referi e que é a intenção de discutir os temas em vez de os tornar em teorias que desafiam a realidade e que ainda querem fazer passar a ideia de que há muitas conspirações em todos os recantos do Vaticano.
Em cada discussão os dois lados surgem e podem mostrar-se ao leitor. E nota-se que Flávio Capuleto até está mais interessado em analisar as novas opções do Papa Francisco do que nessas teorias da conspiração.
Claro que nesta história há um tesouro secreto envolvido nos crimes entre conservadores e reformistas, mas tirando um ou outro extremista os grupos lutam mais na discussão entre a ajuda que a Igreja Católica pode dar à Europa em crise e a conservação do ouro para necessidades futuras.
O interessante é que isso tudo acontece no meio de uma investigação policial feita com bastante eficácia e que mantém o interesse do leitor vivo.
A história tem momentos emocionantes e o papel do detective português é essencial, directo às questões e não se perdendo em mistérios exagerados.
Não há cenas de acção a cada meia dúzia de capítulos, apenas a actuação discreta mas eficaz que esperamos da polícia.
Não posso deixar de destacar, ainda, as cenas "quentes" escritas pelo autor. Bem escritas, que é muitas vezes coisa rara entre os autores destes thrillers.
São cenas que ocupam um lugar de destaque numa história que tem que ver com temas religiosos e isso deve louvar-se, pois assim tanto a alma como o corpo fazem parte deste livro.
Um livro bem interessante, sobretudo por ser diferente do que se estará à espera depois de ser ler o título quase bombástico.




Autor: Flávio Capuleto


Editora: Guerra & Paz


Páginas: 280


Género: Thriller

quinta-feira, 13 de março de 2014

Uma História de Amor Eterno (Sebastian Cole)

O Amor é a força mais importante entre aquelas que fazem mover a Humanidade. Mas não há maneira de viver apenas desse tão grande sentimento.
Se o Amor pode ser eterno, nascido daquele encontro improvável e extraordinário de duas pessoas destinadas uma à outra, não consegue escapar ao facto dessas duas pessoas terem de viver dia a dia.
Para descobrir se o Amor que sentem é, realmente, eterno, têm de investir a vida inteira nele. Apontar ao futuro enquanto enfrentam cada momento presente.
Enfrentando problemas vários, descobrindo-se uma à outra tão ao pormenor que a perfeição deixa de o ser, vendo a relação ser afectada pelo que chega do exterior dela.
A história de Noah e Robin é exactamente assim, a tal ponto que o seu tempo juntos é interrompido para depois arriscarem voltar a estar juntos no momento em que isso parece já improvável.
Nem um nem outro deixam de se amar, mas não conseguem estar juntos como esperariam. Da cena mágica do seu encontro até ao afastamento de 13 anos a sua relação é um emocionante trilho de emoções, sempre inesperado a cada curva, com obstáculos e partes simples de percorrer.
A sua relação adapta-se a cada momento e com ela as personagens evoluiem, conseguindo o autor dar-lhes uma vida que é realista.
Cria-se uma relação muito intensa com Noah e Robin, vive-se com eles aquilo em que eles se transformam.
Não se consegue gostar de ambos durante todo o livro, cada um tendo momentos em que nos exasperam, outros em que nos comovem. Momentos em que são extraordinários e outros que parecem não merecer qualquer benefício da nossa parte.
No final, acabaremos por gostar de ambos, claro! Mas até lá temos de os rejeitar e de os entender em partes iguais.
Admiro um autor que consegue criar personagens assim tão tridimensionais, daquelas que durantes a leitura do livro nos parecem reais e que depois do livro acabado insistem em ficar na nossa memória.
Admiro ainda mais o autor quando consegue tudo isso logo na primeira obra, como se fosse já muito maduro de tantos livros que foi escrevendo!
Com estas personagens que o autor tão bem criou acabaremos por aprender sobre muito mais do que o amor.
Teremos mesmo de reflectir sobre o fim da vida, sobre questões da Alma, sobre até que ponto podemos levar o amor para justificar as decisões que fazemos a propósito do nosso par.
A história de amor de Noah e Robin tem a duração que deixa espaço a uma série de lições de vida e tem os problemas que permitem olhar para a essência do ser humano.
Mais bela é por causa disso, pela maneira como à escala de cada um de nós poderá ressoar e ensinar a viver tanto grandes histórias de amor como o quotidiano amoroso.




Autor: Sebastian Cole


Editora: Editorial Presença


Páginas: 264


Género: Romance

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A Rainha dos Sipaios (Catherine Clément)

A Rainha dos Sipaios conta-nos a história de Lakesemi Bei, uma rainha indiana que teve a coragem de enfrentar os Ingleses para defender a independência da Índia.
A narração acompanha esta mulher desde o nascimento e até à morte que acabaria por ditar que a Índia perdesse a sua independência.
O retrato que a autora faz dela mostra-a primeiro como rapariga e (depois) mulher, sem que nunca ela deixe de ser extraordinária aos olhos do leitor.
Laksemi, ou Chabali como gostava de ser chamada, mostra-se uma mulher complexa cujas acções, logo desde criança, prenunciam o que serão os seus feitos e que a tornarão um ídolo cantado até hoje.
Uma menina arrapazada que desde cedo se mostra diferente das outras. Recusa-se a ser submissa aos pais e em criança brinca e tem aulas com rapazes.
Mesmo quando na adolescência se torna rainha num casamento por conveniência, ainda jovem se torna mãe e assume a luta contra os imperialistas britânicos.
Fá-lo envergando a roupa que pertencia ao seu marido que, como ela descobre, prefere envergar roupas femininas.
Se o astrólogo da família previra que o casamento de Lakesemi seria com um homem diferente do habitual, não esperaria que esse casamento envolvesse uma troca de papéis que permitissem a Lakesemi assumir o papel para que a sua personalidade a impelia e que nunca poderia assumir por culpa do seu género.
A sus simplicidade e a sua coragem tornam-na mais capaz para ser a guerreira que lidera a Revolta dos Sipaios, ainda que a autora não deixe de a descrever como uma bela mulher.
Pois se é apesar da pertença ao género feminino que ela alcança os enormes feitos, é também por ele que estes se tornam míticos num país onde as restrições se acumulavam contra as mulheres.
A complexidade do retrato de Chabali aumenta com a do próprio país sobre o qual reina, pois se ela foi a líder da revolta, também era a ela que os Ingleses respeitavam enquanto soberana.
Era ela que negociava com esse povo que a tentava dominar, tal como acabou por ser ela a primeiro combater os seus intentos. Talvez ela fosse a própria súmula de como a Índia tanto desejava a influência Inglesa como detestava que esta fosse demasiada.
Esse é outro aspecto de enorme valia do livro de Catherine Clément, que com uma linguagem cuidada mas acessível trata de conjugar a biografia de Lakesemi Bei com uma compreensão do país em que ela se movia.
Unidos à vida de Lakesemi Bei, todos os acontecimentos, por mais inusitados que tenham sido, parecem decorrer da natural forma de estar daquela mulher naquele país.
A autora faz-nos mergulhar nas tradições milenares da Índia, fazendo-nos compreender questões que nos parecem tão erradas como as das castas ou dos rituais Satis (viúvas que se imolam pelo fogo para se encontrarem na próxima vida com os maridos).
A autora demonstra que fez uma pesquisa prodigiosa e que tanto quanto se "envolveu" com Lakesemi Bei, se apaixonou pela própria Índia, apesar dos seus defeitos e problemas.





Autor: Catherine Clément


Editora: Porto Editora


Páginas: 280


Género: Romance Biográfico

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

D. Teresa de Távora - A Amante do Rei (Sara Rodi)

A primeira descoberta que se faz com esta leitura é a da sagacidade com que Sara Rodi trata a História.
Tanto porque lhe adiciona parte da sua imaginação de forma imperceptível para a leitura, mas sem deixar que a ficção se confunda irremediavelmente com os factos, como porque sabe integrar o contexto da História sem 
O livro poderia até ser transformado numa ferramenta de ensino atraente, desde que contextualizado.
Mas o prazer maior vem de algo que afectará as leitoras - e, neste caso, o género é importante - de maneira muito mais pessoal.
A protagonista do livro é um exemplo de pensamento feminino, e até femininista, que entra em confronto com a sua época e com alguns dos 
Visto que se torna amante do rei, ganhou já uma liberdade de costumes que se prolongará para o seu pensamento.
As suas reivindicações e dúvidas falam, primeiro, dos seus desejos num tempo em que as mulheres os não deveriam ter.
A dimensão individual extravasa para a consciência social da sua época, para o papel da mulher evidentemente, mas ainda para o papel subjugado da própria Humanidade aos desígnios que a Igreja, por exemplo, tem sobre as pessoas.
Um domínio sobre o livre alvedrio de cada um ao impôr leituras muito estritas acerca dos fenómenos naturais, por exemplo, já que este é um tema que tocará directamente a vida de D. Teresa de Távora.
Em serviço desta ligação do mundo à sua volta e dos detalhes da sua própria vida está a escolha que Sara Rodi fez para o registo na primeira pessoa.
Muitas vezes tornada numa confissão, cria uma sensação de diálogo com o leitor, que receberá melhor a protagonista.
Uma mulher muito bem traçada, com defeitos e peculiaridades que poderemos censurar mas que aceitamos melhor como pontos de equilíbrio para uma mulher que surge como protagonista por ter sido amante do D. José I.
Mas cujo verdadeiro protagonismo neste livro é o de mulher em confronto - pelo menos, confronto próprio - com o seu tempo.
De sobremaneira, é por não ser perfeita e por a escritora não ter expugnado as suas faltas, que D. Teresa de Távora se torna uma guia tão interessante pelo século XVIII.
Não fosse por estar imiscuída com um lado mais sórdido do reino, não poderia a ficção inseri-la em tantos momentos relevantes e transformadores.
Pelo percurso desta mulher chegaremos a conhecer as tragédias que se abateram sobre Lisboa e sobre os próprios Távoras. As tragédias que haveriam de vincar o nome do Marquês de Pombal na memória colectiva.
Ela dá-nos uma visão da História com uma perspectiva de leitura histórica pouco habitual, o que faz com que o livro nos esclareça tanto quanto nos exige que reflictamos sobre o que se passou no período da vida desta mulher.
Dar protagonismo a uma amante é, de certa forma, entrar na História por uma porta lateral. Mesmo se, neste caso, se trata de uma porta que nunca esteve escondida.
Mas não importa por onde entremos, pois também essa porta lateral vai permitir que constatemos a magnificência do edifício que se ergue para lá dela.




Autor: Sara Rodi


Editora: Esfera dos Livros


Páginas: 304


Género: Romance Histórico

domingo, 25 de agosto de 2013

Sete Minutos (Lara Morgado)

Sete Minutos é um romance especulativo que usa uma hipótese de contornos científicos para, acima de tudo, filosofar.
Filosofar com as roupas do homem comum, não com um pensamento demasiado avançado para ser partilhado por todos.
Caso contrário, nem seria possível a Lara Morgado integrar as suas reflexões numa história cativante e cuidadosamente escrita.
Lara Morgado arrisca reflectir sobre um tema que poderia causar algumas emoções fortes na nossa sociedade: o momento em que a vida verdadeiramente começa.
Mas não esperem respostas óbvias - afinal de contas, reflectir é colocar perguntas - nem uma tendência para um dos "lados do debate".
Aqui encontramos uma reflexão sobre o início da vida que se relaciona directamente com a morte. Basta pensar que uma das personagens é médico de fertilidade e outra é uma médica de autópsias.
Entre o nascimento e a morte está a vida, que não é mais do que os momentos de consciência que os seres humanos têm para si.
A consciência é, em grande medida, aquilo que está em causa neste livro, porque a premissa do livro é a de que é possível comunicar com as almas por nascer.
E se é costume dizer que as crianças não escolhem nascer, aqui dá-se o caso das almas não quererem mesmo chegar a fazê-lo.
Muito embora o romance se refira a almas e tenha no sete um número ligado à criação católica, não senti que se pudesse reduzir a uma militância religiosa.
Se há coisa que o livro não faz é "argumentar" com o leitor. Da maneira como os elementos da história se vão revelando devagar ao longo do livro obrigam o leitor a parar para pensar cada pergunta que lhe surge em vez de, simplesmente, o levar a correr pelas folhas seguintes.
Guiados que somos pelas personagens, que vão evoluindo à medida que são confrontadas com as grandes questões sobre o sentido da vida, podemos sentir-nos um pouco pressionados por alguns elementos que têm opiniões pessimistas, vale a pena chegar ao surpreendente final para sentir que valeu a pena abarcar tudo o que o livro contem.
Peguem neste romance preparados para não ficarem indiferentes.




Autor: Lara Morgado


Editora: Guerra & Paz


Páginas: 272


Género: Romance especulativo

domingo, 11 de agosto de 2013

Cleopatra's Daughter: A Novel (Michelle Moran)

Uma história que poucas pessoas conhecem é que Cleópatra VII não foi a última da dinastia ptolemaica, pois também ela teve, além do seu filho que viria a ser assassinado ao alcançar o poder, uma filha chamada Selene.
A morte de Cleópatra é, pois, somente o início da história desta sua filha, pois Selene, bem como o seu irmão, é levada para Roma ainda crianças para serem criados pela irmã de Octávio, Octávia, que era também a viúva do pai dos dois: Marco António.
Este romance histórico coloca-nos bem no centro de Roma no momento da ascensão ao poder de Octávio. E faz-nos sentir que vivemos tal período, o que é aquilo que se exige a um romance histórico, mais do que simplesmente dar informação ao longo de uma narrativa, há que fazê-la reviver perante o leitor.
A personagem de Selene está brilhantemente construída, de forma multifacetada. Somo surpreendidos pela forma como a princesa egípcia parece tão precoce e, ainda mais do que isso, tão contemporânea no período da sua pré-adolescência.
Para além de, como todas as raparigas da sua idade, se interessar por rapazes e roupas, a jovem tem também um grande gosto pela aprendizagem e, ainda, um exuberante talento para o desenho.
Ao longo do livro torna-se numa arquitecta promissora e ocupa a sua mente com questões prementes da época, como a escravatura ou o decorrer dos julgamentos.
À sua volta, muitos dos restantes personagens históricos são-nos apresentados de forma pungente e cheia de vida. Chegamos a sentir que eles podem estar ao nosso lado no momento em que falam, de tal modo são vivos e realistas os seus diálogos.
Considero este livro uma das melhores leituras dentro do género, não restringindo esta consideração à Era a que se refere.
Nunca esquecerei a viagem aqui proporcionada por Michelle Moran, a uma época e um espaço tão marcantes.
O livro leva-nos aos locais mais marcantes do século I a.C. e ilustra de forma realista a maneira como decorria a vida de então, o quotidiano, os usos e costumes dos habitantes de Roma, desde os patrícios até à plebe e mesmo aos escravos.
O que nos leva a conhecer muito da nossa origem latina e também nos dá uma estranha sensação de contemporaneidade perante as casas de férias ou os rolos servindo de guias turísticos, perante os julgamentos com advogados de defesa e acusação ou as grandes lojas/armazéns dedicados em exclusivo à moda.
Uma leitura imperdível nesta pequena preciosidade.




Autor: Michelle Moran


Editora: Crown Publishing Group


Páginas: 464


Género: Romance Histórico

domingo, 21 de abril de 2013

O rapaz que gostava de aves (Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho)

Este é um belíssimo livro que ganha um muito se o adulto que o tem em mãos tiver consigo uma criança que sirva de desculpa para o ler em voz alta.
Está cheio de pequenos detalhes como rimas e pequenos jogos de palavras que são bonitos de ser ouvidos, mais do que lidos.
Além disso, também convém ter uma criança com quem partilhar o livro por causa da sua mensagem ecológica.
Essa mensagem ainda é necessária para muitos adultos, mas as crianças serão sempre o público alvo e um melhor veículo para depois reproduzir a mensagem aos pais.
Até porque o aspecto pedagógico do livro é sublinhado por um jogo de contrastes entre as cores muito atraentes da natureza e os cinzentos desagradáveis dos meios urbanos.
De certeza que as crianças se sentirão ainda mais atraídas para a mensagem extremamente actual - aliás, parece que, infelizmente, está sempre a ficar mais actual, apesar dos esforços.
Não se trata só da mensagem ecológica, mas da apresentação surpreendente de um animal lindíssimo e que será desconhecido para muitos leitores, jovens ou não.
Um detalhe adicional dos desenhos, que torna o livro ainda mais significativo para a infância, é o facto destes se assemelharem aos que são feitos pelos mais novos.
Isso, combinado com a personagem central ser um rapaz, faz com que os leitores jovens se identifiquem facilmente com a história.
O livro acaba por ser um verdadeiro tratado de como tornar divertida e atraente até as lições pedagógicas mais repetidas.
Claro que isto tudo não impede que os leitores adultos adorem o resultado final, luxuriantes de tantas cores e feito com um cuidado que merece o respeito, pela leitura, também deles. Tenham ou não crianças consigo!




Autor: Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (ilustrações)


Editora: Planeta Tangerina


Páginas: 48


Género: Infantil / Ilustrado

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Histórias de um Portugal Assombrado (Vanessa Fidalgo)

Este livro oferece-nos vários relatos de fenómenos sobrenaturais, não apenas assombrações como faria crer o título, mas também de mouras encantadas, bruxos e até aparições do demónio.
Estes fenómenos vêm de tempos tão longínquos quanto a reconquista de Portugal mas também surgem de anos mais recentes, sendo aquilo que se chama "mitos urbanos" talvez porque ainda não tiveram oportunidade de se transformar em verdadeiras lendas.
Li este livro como céptica que sou, mas sem por isso deixar de sentir grande fascínio por todo este mundo de fenómenos que não são (facilmente) explicáveis.
Nesse âmbito, a leitura é um verdadeiro regalo sem carregar a necessidade de carregar uma decisão sobre a crença ou a descrença nos fenómenos apresentados.
São histórias, boas histórias, que têm mais interesse por partirem de pessoas e lugares reais.
A leitura torna-se ainda mais fácil por o livro estar escrito num tom que se aproxima do relato oral, muito apropriado para o estilo de relatos que estamos a ler.
Sente-se que o livro tem histórias mais antigas apropriadas para se ler aos avós que delas terão alguns detalhes diferentes a relatar e outras mais recentes apropriadas a "assombrar" alguns netinhos.
A escritora recorreu tanto a registos escritos como a relatos na primeira pessoa de quem viveu estes fenómenos ou até que partilharam a vida ou a terra com quem viveu tais fenómenos.
Adicionou a isso a procura, sempre que possível, das bases históricas para as lendas, debatendo a verdade que elas possam conter. Valor acrescentado que muito me agradou.
Já alguns longos excertos que a autora copia de outras fontes (que têm de ser consultadas no final do livro) retiram alguma da originalidade dos seus próprios relatos e empancam a leitura.
Mas, no final, é um livro que suscita muito interesse e que vai levar a que muita gente descubra alguns fenómenos paranormais mais perto de si do que pensa!




Autor: Vanessa Fidalgo


Editora: Esfera dos Livros


Páginas: 248


Género: Relato/Reportagem